quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
solidão
Durante muito tempo eu fiz um trabalho de preparação mental para tal evento. Todos são velhos, dizia minha avó. Sua mãe te pariu com 32 anos, eu tenho mais de 60, em breve só sobrarão você e sua tia retardada. (que é tão egoísta que seria o mesmo que ficar sozinha). A profecia da minha avó é um tanto equivocada. Eu estou com 32 anos e tá todo mundo vivo, alguns bem velhos, mas vivos.
Até os 21 anos eu nunca havia tido um namorado-a. Eu pensava que isso era o tipo de coisa que não acontecia comigo, os meus amigos iam, vinham, e ficavam e terminavam com seus pares, mas comigo as relações se resumiam a ficadas de no máximo 3 ou 4 vezes.
Na verdade eu ficava intrigada quando meus amigos falavam das diferentes sensações de emoção após uma trepada bem dada, especialmente com alguém que se ama. Mas as minhas trepadas, desde a primeira foram bem estranhas... eternamente na dúvida se eu queria mesmo transar com homens, minha primeira vez foi apenas aos 19 anos, com um cara com quem saí algumas vezes antes, mas que nunca havia me prometido nada e nem ligou no dia seguinte. Foi com ele porque o colégio todo queria o cara e ele não dava confiança para ninguém. Foi o meu troféu.
Foi uma boa merda, doeu para cacete e só me confirmou o que eu desconfiava, que meu negócio não era homem. Mas... como sou teimosa, eu resolvi fazer a prova do 3. E experimentei com mais dois, o segundo até que acendia algo em mim, mas não era exatamente o cara mais carinhoso do mundo e volta e meia engravidava uma namorada (não eu graças a deus), e o terceiro era para casar, doce, gentil e carinhoso, mas não me dava nem uma gota de tesão.
Quando eu transei pela primeira vez com uma mulher eu entendi tudo aquilo que as pessoas falavam sobre sexo. Foi incrível. E foi com a minha primeira namorada que foi bem legal comigo na ocasião, foi a primeira vez que eu dormi junto com alguém também.
Alìas, depois dela (a primeira namorada) eu entendi pela primeira vez na vida que eu não havia nascido para ficar só, e que namorar com alguém que gosta de você de verdade é uma delícia. Porém, essa relação acabou após alguns anos e mais uma vez eu me vi sozinha.
Foi bem ruim no começo e eu passei alguns anos sofrendo por essa perda. Acho que é babaquice minha, dificuldade de me desapegar. Se passaram pelo menos dois anos e uma série de tentativas de sexo rápido e sem compromisso com diferentes mulheres até que eu me interessasse por alguém.
De fato isso aconteceu e após os devidos rolos e escorregos ligados as relações lésbicas eu acabei entrando em um outro relacionamento. No começo as coisas pareciam ainda mais legais do que no primeiro namoro. As vezes soava tão perfeito que me dava medo. Mas o tempo passou e atualmente as coisas andam meio estranhas.
Hoje me sinto muito, mas muito triste, sozinha, completamente impotente, como seu houvesse uma força que paira sobre meu relacionamento que é maior do que qualquer esforço que eu possa fazer para tornar as coisas melhores.
Quando eu comecei esta relação, nós brincávamos que havia uma espécie de portal aberto e que nós aproveitamos o portal para ficarmos juntas. As vezes acho que o portal abriu de novo, mas no sentido inverso.
Perceber que a sua presença incomoda o outro é muito ruim, (especialmente se você ama o outro) e de fato é assim que me sinto estranha, intrusa. Desde o primeiro dia que entrei aqui eu sempre havia me sentido em casa, hoje eu queria abrir um buraco e me enfiar, ou no mínimo ter a minha casa e não ter que voltar para casa da minha mãe e dar explicações do por que eu voltei.
Pior ainda é pensar nessa tristeza como uma coisa que não é compartilhada com quase ninguém, pois dá preguiça, ou é complicado e doloroso demais descrever para os amigos aquilo que me deixa assim.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
medo de voar
Muito mesmo, do tipo que não aproveita os primeiros minutos da viagem. Tem gente que sente tesão na decolagem e até filma. Mas para mim, a coisa só melhora quando escuto aquele "blim blom... o tempo de viagem até Buenos Aires será de duas horas e cinquenta minutos..." Eu só relaxo quando o alarme sonoro toca.
Esse provavelmente foi mais um recurso anti-enlouquecimento que eu criei para não morrer do coração quando viajo de avião. E de fato vem possibilitando que eu entre em aviões já ha uns dois anos. Na minha cabeça a pior parte é a decolagem. De fato nunca gostei da sensação, mesmo quando eu era criança e dormia tranquila nas poltronas do Electra da Varig na ponte aérea RJ-SP.
O medo de voar foi uma das razões pela qual procurei a análise. Não era a única; pior do que ele era a angústia que eu sentia dias antes de voar, seja porque estava longe de casa, ou porque tinha certeza absoluta de que iria morrer.
Em todos esses anos a maior parte das pessoas que conheci se confessou medrosa com relação aos aviões. Tenho amigos comissários de bordo que disseram ter colegas de profissão que só viajam "cheios de remédios nas idéias".
Porém por outro lado, sou fascinada pelas aeronaves. Conheço os modelos, os tamanhos, tenho apreço pela Boeing e medo da Airbus. (mesmo antes da queda do AF).
Eu conheci três pessoas que perderam parentes e amigos em acidentes aéreos. Uma conhecida perdeu o pai em um acidente da Austral linhas aéreas em Nuevo Berlin no Urugay em 1997. As outras duas pessoas perderam amigos e familiares no acidente da Air France em 2009 e além disso, eu mesma fiquei sabendo que duas pessoas que moravam no meu prédio morreram neste acidente também.
Curiosamente minha cabeça começa a funcionar loucamente quando acontece algo assim. No caso dos vizinhos, fiquei pensando quem foi o taxista que os levou daqui do prédio ao aeroporto e como eu mesma já fiz esse trajeto tantas vezes.
Na época do acidente da Air France eu já estava fazendo análise. E mesmo assim, eu quis saber tudo o que se passava na mídia. Lia tudo. Era como se a informação pudesse me salvar de um possível acidente. Fico siderada no assunto. Alguns dizem que isso só serve para me impressionar, mas não. A morte sempre me instigou tanto, que eu procuro saber tudo o que dá sobre ela. Mas não é qualquer morte... quedas de avião e doenças raras ou complicadas como o cancer é que são irresistíveis.
De fato, minha curiosidade me levou a ficar bastante desconfiada da pouca ou nenhuma comunicação entre os orgãos internacionais de aviação/companhias aéreas.
Quando eu começei a escrever este texto, fui pesquisar no google, sobre as causas do acidente da Austral, e que surpresa eu tive, quando vi que foi o congelamento das sondas pitot. O mesmo que levou a uma sequencia de erros entre os pilotos da Air France, devido aos dados incorretos ligados a velocidade do avião.
Será que a queda do antigo DC9 não teria inspirado mudanças no design ou estruturais nas sondas pitot se tivesse ocorrido em um país como os Estados Unidos ou em algum lugar da Europa?
O assunto dos acidentes aéreos na verdade surgiu numa pequena confraternização após o curso de frances em uma agradável pizzaria na Barra da Tijuca, onde um de meus colegas contou a nós sobre sua irmã, morta no AF447. Mas além da morte em si, um detalhe me impressionou. Como o colega é policial federal aduaneiro, ele mesmo fez o embarque da irmã no voo.
Um milhão de coisas atiçaram minha cabecinha é claro. A sensação de ter sido a última pessoa a ter visto a irmã e tê-la embarcado, é horrivel. O fato de conhecer alguém que tinha um parente próximo no voo, torna as coisas mais reais, mais arrepiantes. E por isso matutei sobre o assunto por praticamente 24 horas e estou escrevendo o presente desabafo.
A mesa, todos falamos sobre o medo de voar. Inclusive eu. E cada um encarava a coisa a sua maneira. O rapaz que perdeu a irmã diz que seu medo piorou após o acidente, mas que pelo menos o pesar sobre a morte da irmã melhorou com a análise. A professora de Francês se aventurou por diversos tipos de terapia e teve até crises de choro graças a turbulências mais turbulentas. Mas uma moça que tem um ótimo senso de humor disse uma coisa que me tranquilizou de certa forma: "avião é que nem a máquina do tempo".
Eu até acho que ela encara a própria frase de maneira mais pessimista do que eu estou encarando. Avião é uma máquina do tempo, que pode me levar a tempos muito mais felizes e me trazer de volta para casa. É uma espécie de caixa, cuja sensação quando as coisas vão tranquilas são de um troço que mal sai do lugar. Era meio assim que eu me sentia voando quando era criança.
Desde que minha análise acabou eu nunca mais vooei. E daqui a mais ou menos um mês irei pela primeira vez a Europa. É na verdade o primeiro destino que vou, no qual só será possivel voltar tomando outro avião.
Ir a Europa, é um sonho antigo, tanto quanto estudar medicina eu acho, e que me foi amputado durante muito tempo graças ao "mecanismo da angústia" que me paralisou durante muito tempo. Na verdade desde que começei a análise dei vários passos no sentido desta viagem.
Em 2007 fui a primeira vez para a Argentina, e essa viagem fui fundamental para me direcionar ao tratamento psicanalítico... tive uma crise de angustia e medo tão horrível nesta viagem que decidi dar um basta naquilo. Essa viagem (Argentina 2007) me fez desistir de vários planos que incluiam distâncias e aviões. O que para mim parecia mais como uma amputação ou uma violação.
Eu só fui voar novamente em 2010, após 3 anos e meio de análise que eu tive coragem de entrar em um avião novamente após o fiasco argentino. Foi só aí que me senti segura o suficiente para fazer uma pontezinha aérea só de ida.
No começo de 2011 após algumas viagenzinhas pelo Brasil, encarei Argentina mais uma vez, e entre mortos e feridos, saí vencedora e decidida a encarar uma viagem transoceanica num belíssimo boeing 777 inglês;
Claro que no meio do caminho eu não contava com um xiliquete de meu analista, mas confesso que por nem um segundo o problema com meu analista me fez questionar a viabilidade da viagem a europa.
Angustia além mar, sim talvez eu sinta, mas talvez não. Claro que minha cabecinha é meio doidinha e eu já achei que fosse morrer nessa viagem. As vezes ela me dá medo, mas não desespero, o que é fascinante. Pois faz tempo que eu não se sinto tão livre para explorar uma terra estrangeira como agora.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
início meio e fim
Digo pela primeira vez, pois minha mãe vendo o estado de minha avó (sem banho as vezes durante meses), nunca anteriormente havia obtido nenhum sucesso na tentativa de execução de uma bela sessão de limpeza. Minha avó muitas vezes gritava que não! Que não queria... e minha tia insistia em dizer que não deveríamos forçar minha avó. Que deveríamos respeitá-la.
Mais uma vez o império da maluquice da minha avó e seus suditos fiéis falavam mais alto do que a lógica e o bom senso. Que vergonha eu tenho da minha família as vezes.
Na verdade um grande problema no trato com meus avós na posição de idosos/quase incapazes, foi o fato de minha tia ter continuado tratando minha avó como uma pessoa "normal" quando ela mostrava sinais de demência bem claros. E graças a isso, rolava um impasse na "manutenção" dos velhos. Nada mudava, pois de um lado tinha minha tia "respeitando" as vontades de minha maluquete avó, e do outro minha pondo panos quentes nos sintomas, sempre dizendo que minha avó não estava tão mal assim, buscando sempre um fio de esperança nos momentos de lucidez de minha avó.
Na semana passada, após quase 3 anos do começo dessa maluquice toda de avós doentes, minha tia se rendeu. Me pediu para levar minha avó ao médico, pediu também que eu desse banhos nela, pois ela estava fedendo. Eu rebati dizendo que pediria ajuda a minha mãe. Para minha surpresa, minha tia não disse nada.
Digo isso pois fico desconfiada que minha tia mais velha trabalha em um movimento constante de drag me to hell, para dividir com ela o posto de gárgula soberana no trato dos meus avós.
O cacete espinhento que eu entro nessa. Depois de quase cinco anos de análise consegui meio passe de liberdade capenga dessa família doida e ela fica tentando amarrar o laço em mim de volta e me puxar para dentro do castelo... é ruim ein!
Aos poucos meu ex analista foi me convencendo que o "mecanismo da angustia" imposto pela minha família tinha muito a ver com a imposição irrestrita das maluquices da minha avó, custe o que custasse. (isso pode ser a minha leitura... talvez, mas acho que mexer nas peças trouxe resultado sim).
A maluquice de vovi, é tão doida que ela continua mesmo maluquete do alzheimer, torturando vôvi e tia do inferno sempre que pode.
Meu avô hoje veio me dizer pela enésima vez que sofre quando minha avó diz "Eu quero morrer". E eu já falei enézima ao cubo, com toda minha paciência que ele é lúcido e ela não, que ele deve relevar este tipo de coisa. Aliás, eu falei, a médica neurologista falou, o cachorro falou o papagaio piou e deus murmurou. Meu avô continua capturado, e minha avó continua implicando.
Tenho paciência e sou doce com os velhos por gentileza. Gritar com eles ou perder a paciência seria o mesmo que agredir a um bebe. Claro, rebato as maluquices da minha avó, mas no máximo quando ela me agride fisica ou moralmente eu a "coloco de castigo" sentadinha no sofá e explico porque ela não deve fazer as coisas daquele jeito.
Por outro lado entretanto, em apenas alguns meses, as coisas mudaram muito na casa dos meus avós. As compras não são mais feitas integralmente na padaria que cobrava um absurdo por um litro de suco de laranja e um pacote de biscoitos. Cifras próximas a 600 reais eram gastas todas as semanas somente em "besteiras", pães biscoitos e afins. Até pouco tempo atrás o cardápio diário da casa era escolhido pela minha avó, que muitas vezes fazia meu avó diabético comer coisas que não podia, e comprava toda semana de uma empresa de comida congelada que vendia marmitas que tinham gosto de isopor e cobravam uma fortuna.
Atualmente minha tia que ganha muito bem e nunca pagou nenhuma conta na casa nos seus 65 anos de vida (vivia sustentada pelos meus avós, mesmo quando tinha um salário mais alto do que o do velho) paga as compras de mercado. Paga reclamando, me enche um pouco a paciência, mas paga.
Meus avós comem comida fresca, feita pela empregada que é uma cozinheira de mão cheia. Meu avô vai ao médico e minha avó depois de meses de uma negligência surreal tomou um banho.
Eu fiquei ao lado da minha mãe durante o banho e olhei para o corpo bem envelhecido de minha avó. Haviam muitas marcas de cola adesiva em suas costas graças ao patch que ela usa diariamente para retardar a evolução da doença de alzheimer. Graças também a falta de asseio na remoção da cola adesiva no momento da troca do adesivo.
Toda semana minha mãe olhava para aquilo e reclamava. Eu dizia: fazer o que? Não podemos tocá-la. Minha avó tirou a roupa e eu olhei bem para seu corpo. Estava bem diferente do que eu me lembrava. Minha avó sempre foi uma mulher cheinha, com curvas e sua pele mesmo quando ela já tinha mais de setenta anos era firme. Hoje não. Ela estava magra, a pela sem tônus, tirando a pele do rosto (que ainda tem viço) a do resto do corpo parecia papiro.
Sua expressão era estranha, um misto de desgosto de sentir a necessidade de ser auxiliada para fazer sua higiene pessoal, e o prazer de se banhar em um dia quente. Minha avó apresenta sinais de impregnação da medicação. Fazia movimentos estereotipados com a boca, por um segundo pensei que ela estava sem prótese dentária, mas não, são os remédios que a mantém um pouco menos doente, mandando seu recado.
Fazia muito calor no banheiro e a água ligava e desligava intermitentemente. Ela reclamava do frio quando o velho aquecedor insistia em não funcionar e desligar a água.
Meu avô ao me ver sair do banheiro com as roupas sujas de minha avó na mão perguntou: ela está tomando banho? Eu disse: Sim. Ele sorriu.
Eu não sei ao certo quantas vezes minha avó me deu banhos, sei que não foram poucas. Alias era isso que minha mãe dizia a ela quando ela repetia durante o banho: "estou dando trabalho, eu não queria fazer isso com vocês".
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
it´s a long way
A minha avó e o meu avô juntos, nos seus dois casamentos tiveram nove filhos. Dois filhos da minha avó morreram, portanto não entram nessa conta. Mas dos sete vivos, aparentemente apenas minha tia do inferno e minha mãe (com muita dificuldade) que cuidam de alguma maneira dos dois.
É claro que nessa matemática da maluquice familiar acaba sobrando muito para mim.
E como neta e não filha, acredito que não deveria de forma alguma estar ocupando esse papel. Meu pai já morreu, e minha mãe ainda tá jovem demais para precisar de fraldas e enfermeiros.
Portanto, sozinha, tenho que lidar não só com a idade avançada e com as doenças dos dois, mas também com toda a neurose acumulada pela família durante todos esses anos.
Minha tia do inferno é completamente louca, e é a última pessoa no mundo que eu deixaria cuidando da minha mãe e do meu pai... justamente por isso me admira muito que minha mãe e meus tios e tias o façam. É o processo de vingança mais injusto que eu já vivenciei. Pessoalmente acho que se você tem questões com os seus pais, procure uma boa análise, pai de santo, padre, pastor, rezadeira enfim qualquer coisa... mas resolva sua pendenga com seu velho ou sua velha enquanto ambos estão fortes e lúcidos, ou então cale-se, ou vá resolver você sozinho.
De fato meus avós estão pagando um preço alto de todos os lados. Se por um lado, são maltratados emocionalmente e moralmente pela minha tia que não tem mais a menor condição de exercer o papel que ela exerce atualmente, pois está esgotada física e mentalmente; além de ser tão arrogante que é incapaz de admitir sua incapacidade. Por outro, sofrem com a ausência dos filhos que em sua maioria nem uma ligação telefonica são capazes de fazer. Quem diria então tentar minimamente mover as peças do tabuleiro para tirar a torre do lugar dela e tomar algum tipo de providência com relação ao cuidado de seus pais.
Para mim isso é vingança. Hoje levei meu avô ao médico ( feito que só consegui com muito esforço, pois minha tia simplesmente vetava seu cuidado médico, e quando o fazia era através do contato esporádico com um clínico geral que já está completamente senil e não via meu avô pessoalmente a anos). Levar meu avô ao médico demanda uma operação complexa... táxi especial, cadeira de rodas, dois enfermeiros, um dia inteiro tomado praticamente. Sou jovem e bem disposta, mas isso me cansa. Não é a doença, a idade, é o desgaste... não é simplesmente levar meu avô. Para ir e vir eu dependo da boa vontade da minha tia para quem tudo é motivo de gritos, reclamações e stress.
Antes da denuncia dos vizinhos a polícia (de maus tratos a idosos) ela gritava com os dois (avô e avó) agora ela grita sozinha e comigo. Minha tia é o tipo de pessoa difícil cuja arrogância não permite atender a algumas das sugestões que eu dou para que ela tenha um mínimo de bem estar. Não adianta falar, nada funciona, nada é bom, nada tem solução... a solução dela é me cansar, me azucrinar, encher o meu saco. Coisa que não tem serventia alguma, só me afasta cada vez mais da situação e cria uma intolerância cada vez maior da minha parte.
Voltando da médica do meu avô, mostrei a minha tia todos os procedimentos que a endocrinologista pediu com relação ao controle do diabetes do meu avô. Primeiro ela reclamou que foram feitos ajustes nas doses de insulina. Depois ela se recusou a permitir que meu avô saísse de casa para fazer um exame de sangue no laboratório que foi solicitado.
Nesse momento eu me cansei e falei quer saber... ok, então não faz o exame... minha tia é tão arrogante que se recusa a perceber o tamanho da ajuda que eu dou a ela. Ela age como se o normal fosse meus avós ficarem trancados em casa sem banho, sem ir ao médico, num verdeiro inferno. Meu avô ficou dois anos sem sair de casa, talvez até mais na verdade. Isso é insalubre demais.
Fico impressionada como a maluquice da minha avó sobre sair de casa e se afastar contaminou a minha tia. Hoje minha mãe me disse que em certa ocasião minha tia ficou dois anos sem sair de casa.
Como criatura livre que sempre fui, desde pequena adorava sair a rua e sentir a luz do sol e o ventinho no rosto igual a um cão com o focinho para fora da janela do carro. Todos os sábados de manhã minha mãe me levava para caminhar na rua. "para onde você quer ir...?" ela me perguntava. Eu sempre apontava mais longe a frente. Até hoje quero ir mais longe, vivemos em um mundo tão grande para ser explorado e apenas uma vida um tempo limitado para fazê-lo. Por que então ficar trancado em casa vendo novela? Uma viagem para o exterior é uma das coisas mais ricas que um ser humano pode experimentar. Para ver as coisas de maneira mais clara é preciso olha-la de outro ângulo e para fazer isso é necessário se afastar.
Mas pelo visto isso não era permitido no reino da loucura de vovi, e titia do inferno, boa soldada que é tenta loucamente levar isso até o fim. Hoje quando voltei da consulta ela repetiu umas vinte vezes para mim como é daninho para ela (veja bem, ela aponta o problema ela!) quando eu levo meu avô ao médico.
E minha tia não reclama uma vez. Ela repete as coisas incansavelmente. É uma das mais exímias habilidades dela. Ela parece prender as pessoas numa espiral de coisas ruins quando começa a reclamar. É uma coisa louca de se ver, e muito difícil de se libertar.
Levar a situação na casa dos meus avós para um mínimo aceitável custou muito para mim. Física e psicologicamente. Foi uma long way que tive que percorrer completamente sozinha. Mas talvez tenha sido a única maneira de viver de maneira minimamente mais tranquila comigo mesma.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Liga - Desliga
Toda vez que alguém me aborrecia ela dizia: não liga não minha filha, é assim mesmo.
É assim é o caralho! Quando alguma coisa saía diferente do que a minha avó queria o diabo subia do inferno e vinha cuspir fogo em quem a desafiava.
Infelizmente devido a doutrina da minha queria avó eu tive, e de certa forma ainda tenho muita dificuldade em dizer não. Antes eu era mais passiva, ficava atrapalhada e depois todo esse sentimento guardado virava um misto de fúria com angústia.
Um exemplo bom disso, é a minha tia do inferno (até que ela andava calminha de uns tempos para cá) mas essa semana ela resolveu tirar a pele de cordeiro e azucrinar a vida alheia (minha e da minha mãe) de novo.
Ela tinha um hábito péssimo que de certa forma ainda perdura, quando eu era adolescente e fazia algo que ela não gostava, ela me arrastava para o quarto dela e me passava um sermão. Mas não era simplesmente um sermãozinho de não faça mais isso. Era um pacote de humilhação completo, daqueles que ninguém se esquece. Era uma espécie de tortura, e eu simplesmente não conseguia sair dali, ficava ouvindo petrificada. Nem ódio eu conseguia sentir, minha tia me arrasava e fez isso repetidas vezes durante a minha adolescencia muitas vezes por motivos fúteis e vis, como o dia que eu marquei um encontro com ela na casa dela e me esqueci de ir, ou o dia que fiz uma festa escondida na minha casa, e minha mãe acabou estourando e acabando com a festa.
A sessão de tortura durava mais de uma hora. Todos na casa sabiam do que se tratava, mas ninguém ia lá me ajudar. Todos eram coniventes. Minha mãe estava convenientemente trabalhando nessas ocasiões. Minha avó concordava com tudo. Eu mais uma vez não podia contar com ninguém.
As vezes minha avó se juntava a minha tia, como no dia que eu fui pedir toda animada para fazer um intercâmbio no exterior, e minha avó me disse que isso nunca iria acontecer porque na Europa ou nos Estados Unidos eu não passaria de uma judiazinha bastarda latino americana.
As vezes minha mãe se juntava as duas e me fazia sentir mais sozinha ainda. Várias vezes eu me pergunto, por que minha mãe quis tanto ter um filho? Só para satisfazer a fome de tortura e domínio da minha avó e da minha tia?
Toda essa tortura ao meu ver foi se acumulando dentro de mim, formando grandes depósitos de angústia e isso provavelmente ocorreu desde os meus 4 meses de idade (foi quando minha mãe me deixou na casa da minha avó, e foi para São Paulo viver a vida dela).
Hoje em 2011 minha tia do inferno se encontra mais maluca do que nunca, e vive com meus avós idosos e doentes. Sabendo que eu sou uma criatura que costuma escutar e nunca diz não, ela tem por hábito me ligar, e me azucrinar com seus problemas pessoais (ela não quer solução, ela só quer irritar quem está do outro lado da linha). Durante muito tempo meus amigos me perguntavam, porque você não desliga?
Eu simplesmente não conseguia. Um dia no começo de 2010 minha tia me irritou tanto que eu finalmente gritei com ela e desliguei o telefone. Infelizmente minha tia é uma especie de locomotiva que só para no dia que morrer, portanto depois de algum tempo parada ela volta a repetir as mesmas mazelas e as mesmas apurrinhações.
Hoje ela me ligou e começou a desfilar a mesma ladainha de sempre. Aí eu resolvi que toda vez que ela me irritasse eu iria bater o telefone na cara dela. E foi o que fiz! Claro que ela insistia e ligava de novo e de novo, afinal ela é uma locomotiva. Mas depois da quinta vez que desliguei na cara dela, acho que finalmente consegui subir uma parede alta o suficiente para conter a locomotiva. Pelo menos no dia de hoje!
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
angoisse
Tenho 32 anos e a primeira vez que tive uma crise eu tinha apenas 11 anos. Na verdade naquela noite de domingo eu nem imaginava que seria a primeira de muitas e muitas crises.
Durante algum tempo eu pedi socorro a minha família, mas como eu já mencionei anteriormente ela me ignorou completamente, e dessa forma pioraram muito o problema, o que resultou em anos praticamente inteiros dedicados a angústia.
Era uma espécie de força que tomava todo o meu corpo de assalto. Viver angustiada é muito difícil e cansativo também, aos 18 anos eu torci para que o tempo passasse bem rápido e eu chegasse logo aos 40 ou aos 60 anos para que a morte estivesse mais próxima e eu pudesse me livrar da sensação que a angustia tras.
Nos momentos que de trégua, era fácil encontrar um motivo que voltasse a me deixar angustiada de novo. Álcool, por exemplo. Beber me deixava angustiada, assim como alguns comerciais de TV, notícias de morte fosse no jornal ou na minha família... a idéia de morte de uma maneira geral.
Ontem eu estava assistindo uns vídeos do garoto enxaqueca e senti muita saudade daqueles "anos da angústia" 1996-1997. Digo isso porque quando penso nessa época um inverno muito cinzento é a primeira coisa que me vem a cabeça; mas eu tenho consciência que minha juventude não se tratou só disso; ai resolvi fazer força com o cérebro e procurar me lembrar bem daqueles dias... As vezes eu matava aula com meu amigo Jay, e passávamos o dia circulando pela cidade de ônibus até o anoitecer, isso era divertido. Ou então o dia que as férias de verão começaram e nós alugamos trainspotting e pedimos um pizza para comer enquanto assistíamos o filme.
O jeito que eu me vestia, (uma coisa entre sapata-cluber e punk) as besteiras que eu aprontava com a Mônica, uma amiga do curso de inglês. São muitas as lembranças que me vem a cabeça. Como o dia que Jay me deu um poema de natal dizendo que o mundo era azedo e eu fazia parte do seu antídoto, ou as inúmeras vezes que eu fui com Mônica ao shopping passar horas nos videogames ou as tardes que eu passei na casa de amigos simplesmente ouvindo música e jogando conversa fora, os shows, as festas... bem, aí a coisa pegava, a noite a angústia costumava bater firme e foi aí que aos poucos o lexotan foi entrando na minha vida.
Mas eu sentia muita vergonha de admitir o meu "problema" e meus amigos nem desconfiavam do que se passava comigo.
As vezes eu fazia umas besteiras como o dia que eu fui ao mercado mundo mix com o Jay e misturei lexotan com bebida e achei que fosse morrer de tanta palpitação.
Minha angústia sempre me pegava antes de dormir. Eu tinha medo de dormir e não acordar... as vezes eu dormia e acordava sem ar, com o coração saindo pela boca de tão rápido, e simplesmente o pavor me tomava... tremores, suor, uma sensação que me dominava o corpo, eu não tenho ideia de quantas vezes isso aconteceu. Por muitas vezes eu me levantei e passei noites inteiras em claro fazendo os rituais mais bizarros esperando resolver o problema. Teve uma vez que eu fiz waffles com sorvete, outras eu ligava a TV e assistia até a sessão do descarrego... ou então passava rezando em silêncio para que meu coração se acalmasse assim como a minha mente que não parava.
Ontem eu resolvi tomar uma cervejinha junto com um delicioso acarajé. Algumas horas depois eu estava angustiada. Ao contrário do que ocorria quando eu era mais nova eu procurei ir deitar, fui para cama porque estava com frio e morrendo de sono, apesar de ser apenas 8:30 da noite e este não ser o meu horário habitual do soninho.
De fato depois que eu comecei a fazer análise a minha angustia foi não só diminuindo como mudando de figura. Nunca mais uma angústia enorme sem motivo nenhum aparente me pegou; muito embora a sensação tenha vindo com tudo algumas vezes mesmo depois da análise normalmente estava vinculada a alguma questão mal resolvida e não simplesmente um "touro indomado" que não tem a menor razão para vir me atacar.
Na verdade mesmo depois que eu comecei a análise eu levei muito tempo para compreender que angústia é uma característica humana. Por que? Provavelmente porque eu vivia tão angustiada que era difícil ententer que a angústia acontece as vezes, é normal. Não pode é ser sua companheira do dia a dia como acontecia comigo ha alguns anos atrás, mas como um aviso de que talvez as coisas não estejam saindo como você planejou ou simplesmente porque você descende da família da minha avó e lá (na família da minha avó) o exército da angústia faz de tudo um pouco para complicar o que pode ser fácil "de tabela" tentar empurrar umas dosezinhas do tal sentimento para ver se você impaca mais um pouquinho a sua vida e entra na "ciranda dos malucos".
Voltando ao domingo a noite... eu me deitei e tentei algumas das minhas técnicas anti angústia mais utilizadas: respiração de yoga, me revirar para lá e para cá na cama, tentar pensar em outra coisa, me levantar repetidas vezes e ir ao banheiro... pois bem com o fracasso das opções anteriores eu decidi travar uma batalha com a angústia; eu pensei: eu tenho todo tempo do mundo e dessa vez não levanto dessa cama até vencer.
Voltei a respiração de yoga e me "estabilizei", ou seja a angústia não melhorou nem piorou. Desafiei o sentimento algumas vezes dentro da minha mente, e aos poucos a coisa começou a baixar... não sei porque me virei de lado e experimentei uma sensação entre o dormir e o despertar durante algum tempo, além de alguns minutos de cochilo.
As 9:40 minha namorada me chamou para fazer o jantar. Eu nem havia notado que mais de uma hora havia se passado, me levantei meio sonolenta com muita preguiça e um resquício de angustia, mas fui lá, fiz os sanduiches com um esforço fenomenal (por causa do sono e da preguiça) e acabei me desprendendo dos meus sentimentos angustiantes assistindo a primeira temporada de queer as folk.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Life is just what happens to you while your busy making other plans
A Fiona parece apreciar como ninguém um passeio. Um solzinho na cara, um ventinho gostoso, uma volta de carro em um dia bonito, um mergulho gostoso na praia.
Parece que ela me entende como ninguém e vê o valor que essas coisas parecem ter. Ela tem seis anos e meio, o que são uns 45 anos humanos, mas a fiona não é nenhuma coroa não, ela está super em forma magrinha, barriguinha sarada. Alguns primeiros pelos grisalhos começam a aparecer, mas eu também já tenho meus bons cabelos brancos e sou mais jovem do que ela em anos humanos.
Toda vez que eu levo a Fiona na rua, eu separo uma parte do passeio para o "farejo". Eu deixo a coleira mais solta numa rua sem saída com menos movimento de carros e vou deixando ela seguir alguns rastros. É o único momento do passeio que eu vou para onde ela manda, muitas vezes ela fica ziguezagueando e tentando ir muito longe e sendo contida por mim, mas outras ela se fixa em um ponto específico da vegetação que nasce entre os paralelepipedos e fica mexendo o focinho para um lado e para o outro com um movimento muito, mais muito sutil, que só os grandes observadores conseguem notar.
A felicidade quando estamos na rua fica estampada nos olhos da Fiona, e o rabo abana quase o tempo todo, meio que como um sinal de agradecimento por proporcionar mais uma deliciosa visita as possíveis surpresas que moram do lado de fora da porta.
Eu sempre me perguntei porque algumas pessoas preferem passar as suas vidas trancadas, já que só temos uma vida e ela passa muito, mas muito rápido.
Quando eu comprei meu último carro fui levá-lo para meus avós e minha tia mais velha o conhecerem. Isso é meio que um ritual nosso. Minha avó sempre desceu para entrar e olhar o carro. Mas agora conforme sua doença vai avançando as coisas vão piorando e ela ficou junto com o meu avô e a minha tia olhando o carro lá de cima do quarto andar do prédio. Não vendo nada senão o teto e o capô do carro. E não existe uma impossibilidade física que separe minha avó do carro. Somente a maluquice geral da minha família multiplicada por mil (já que dizem que as coisas pioram com a idade).
Para uma pessoa como eu essa cena é bizarra. Quando eu comparo as pessoas da minha família com as pessoas de outras famílias (nessa questão da reclusão) eu tenho verdadeiros arrepios. A avó de uma grande amiga minha é mais velha que minha avó e viaja de ônibus sozinha para outra cidade. Todo mundo sai, mais ou menos, mas sai, viaja vai ao cinema. Ao contrário da minha avó ficou tão presa e ancorada dentro daquele apartamento que ficou lelé com menos de 80 anos. O meu avô que a acompanhou na empreitada parece ser provido de genes de melhor cepa, e aos 89 anos não está demente, mas por sua vez arrumou uma doença degenerativa e uma artite tão feia que ficou prisioneiro de seu corpo.
As vezes eu acho que a posição dele é bem pior; certa vez, ele assumiu para mim que pensamentos nefastos tomam conta de sua cabeça vez ou outra quando ele se deita para dormir. Na posição do meu avô, deve ser impossível não pensar que sua ampulheta está ficando sem areia, especialmente se você ainda tem massa cinzenta intacta. Tentei me colocar no lugar do meu avô por uns 30 ou 40 minutos e rapidamente precisei ocupar minha cabeça com outra coisa.
Talvez a solução para esse problema seja mesmo se ocupar, viver tanto quanto você possa e de fato mesmo aos 89 anos tentar pensar em outra coisa... o que deve ser mais fácil se você viveu muito e intensamente o tanto quanto pode. Mas deve ser foda de ruim se você optou por deixar a vida de lado e ficar trancado num apartamento com a sua mulher e os filhos e netos dela por 30 anos como meus avô fez.
sábado, 8 de outubro de 2011
loca loca loca
Saber que mesmo com a minha avó velha, gagá e cansada de ser quem ela é minha tia e minha mãe insistem em tentar prolongar seu legado de maluquice não importa o preço.
A vida toda eu escutei que na minha família só haviam mulheres fortes. Forte é o cacete. Elas são é muito covardes, passaram a vida inteira fazendo o que minha avó mandava, reproduzindo aquilo o que a minha avó dizia.
Que dificuldade em encarar a vida fora da barra da saia da mamãe... são duas burras velhas de mais de 60 anos e continuam fazendo merda em cima de merda e pior, querendo afundar os outros na merda.
É um prazer inenárravel que elas tem em tentar me arrastar para este buraco do qual elas não conseguem sair. Quanta covardia da parte de uma, quanta arrogância da parte da outra.
A minha família é tão difícil como problema para se lidar que dá trabalho me preocupar com o que acontece na minha vida a parte do universo de maluquices deles. Muitas vezes eu tenho a impressão de que 70 a 80% do tempo eu estou me esquivando ou tentando limpar a merda da minha família quando ela encosta em mim e só no restinho de tempo que me sobra eu posso tudo, viver, me divertir, e lidar com os problemas reais da minha vida adulta.
Agora por exemplo o corpo docente ignóbil e mediocre do meu curso de doutorado está tentando fazer uma rotação das bolsas de estudos que alguns de nós temos direito.
Na verdade quanto mais contato eu tenho com aquela gente mais eu dou graças a deus que só falta um ano e meio para defender a minha tese e que as coisas estão mais do que em dia.
Eu sempre me pergunto quanto escuto o papo da rotação das bolsas se algum dos meus ambiciosos coleguinhas deu o duro que eu dei para arrumar uma bolsa. Ou ainda se eles se dedicam como eu a fazer de suas teses um trabalho extraordinário.
Isso seria pedir demais a quem tem sérias limitações intelectuais é óbvio. Tirando algumas pessoas a quem eu tenho muito apreço, boa parte dos meus colegas de doutorado não consegue ver muito além do próprio umbigo, e vive como a maior parte das pessoas desse país querendo formar uma panelinha ou vínculo político para levar algum tipo de vantagem sobre quem está apenas querendo viver sua vida.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
o reino
Ele ficava no meio de um bosque, no alto de uma montanha. Nele havia um rei, bonzinho, mas muito submisso e por vezes um pouco chato. Uma rainha mandona e poderosa, que tinha coisas boas e coisas ruins, mas que manipulava toda a corte para que as coisas saíssem sempre do seu jeito. A rainha e o rei tinham três filhas e um filho. Três princesas; a mais velha que acumulou várias riquesas pela vida, mas gastou tudo, nunca se casou e nunca conseguiu morar longe da rainha mãe.
A do meio que fugiu do reino quando tinha 20 e poucos anos e teve uma filha com um plebeu estrangeiro (que a rainha odiava).
E a caçula, que foi mimada por toda a família e nunca teve responsabilidade nenhuma e sempre fez só o que quis. Os principes, um morreu no parto, o segundo morreu em um combate armado. Portanto só o filho mais jovem sobreviveu, e mesmo que ele tenha direito de um dia se tornar o novo rei, a rainha tratou de menosprezá-lo tanto que o principe acabou temendo por sua vida e fugiu do reino com apenas dezoito anos.
Quando a princesa do meio fugiu com o estrangeiro, foi perseguida constantemente pelos guardas da rainha, que era contra seu casamento com o plebeu estrangeiro. Ela fugiu o tanto que ela pode até que foi capturada e obrigada a entregar sua filha para que pudesse tentar ser feliz com o estrangeiro.
A rainha mãe se apegou muito a sua neta, que acabou crescendo muito próxima ao rei e a rainha.
Muitos anos se passaram e a rainha mãe já bastante idosa, ficou muito doente. O principe e as princesas ficaram muito abalados com a doença da rainha. Muito preocupado com seu futuro e o de sua esposa o rei baixou um decreto nomando sua neta como tesoureira, chefe do exército real e dos curandeiros do reino.
As atribuíções da neta princesa eram muitas, e ela é muito jovem. Ela teve que lidar com a ausência da princesa mais nova, com a inexperiência e hesitação da sua mãe, com o descaso do príncipe, e com as tentativas de tomada de poder da princesa mais velha que buscava o controle de todo o reino antes mesmo da morte de sua mãe.
A princesa mais velha tentou de tudo para governar. Mas ninguém queria que a princesa mais velha chegasse ao poder. Porém, as pessoas do reino e da corte tinham muito medo dela, pois a rainha mãe muitos anos antes havia lhe dado um super-poder. A princesa mais velha não se cansa nunca.
Isso é um problema pois a princesa neta é jovem, humana, não tem super poderes e quase nenhum respaldo de ninguém do reino, só seu escudo e sua própria inteligência para lidar com a princesa mais velha.
Porém, como tudo na vida cada vez que a "princesa-rainha" usava seu super-poder ela pagava um preço... a sua saúde se debilitava, um pouquinho a cada dia. Mas uma pessoa que não se cansa nunca tem muitas vantagens sobre nós os pobres mortais, e na tentativa de "estar sempre a frente" da princesa neta ela acabou usando seus poderes em demasia, e é claro acabou pagando com sua saúde. Uma noite a princesa do meio a encontrou quase morta e a levou para os curandeiros do reino que levaram vários dias para tratá-la.
Mas infelizmente nem assim ela aprendeu, e continuou a usar seus poderes e a pagar com sua saúde, portanto vários de seus dentes já caíram, ela caminha com dificuldades e perdeu um pedaço de um dedo da mão.
A saúde do rei também vem se debilitando graças a sua idade avançada, e percebendo isso, ele pediu socorro para a princesa neta. Mas a princesa mais velha por muito tempo não permitiu que a neta ajudasse o avô e abrisse caminho para os curandeiros do reino, e para a administração correta e justa das joias da coroa.
Em uma medida desesperada a neta princesa pediu ajuda aos reinos vizinhos e declarou guerra a princesa mais velha. Após alguns meses de batalha a "princesa rainha" aceitou algumas das condições que a princesa neta a impôs. Foram tantos bombardeios que ela teve medo de ser deposta de seu posto. Além disso, os soldados do reinho que vinham vigiá-la constantemente para mantê-la sob controle.
Mas como a vida da princesa neta não é simples ela vive sob as ameaças constantes da princesa-rainha, que torna tudo o que ela puder mais difícil.
A princesa neta está cansada, afinal ela não tem super poderes.. é muito jovem e só quer viver sua própria vida.
domingo, 25 de setembro de 2011
o amor mais rápido do mundo
Um certo dia eu era bem pequena, tinha uns 2 ou 3 anos e a pequinês da minha vizinha me deu uma super mordida na mão.
Depois desse dia passei a ter pavor de cães. Não sei precisar de certo quanto tempo o medo durou, mas sei que passou um dia, não muito tempo depois, quando eu estava na casa de uma amiga da minha mãe em São Paulo que tinha um cocker preto. No começo eu fiquei apavorada, mas aos poucos o dócil cão me salvou do universo da privação canina. Brincamos a tarde toda, e noite a dentro até que eu cai no sono no chão, abraçada no cão preto.
Após esse dia eu passei a pedir um cão a minha mãe todo final de semana. Mas ela se recusava, e existia uma razão pela recusa na aquisição de um novo canino já que a minha avó ( dona e rainha da casa, portanto se ela não quisesse nada aconteceria) ainda sofria com a perda da Jujuba vira latinha que pertenceu a familia por 16 anos (quinze deles antes do meu nascimento) e se recusava a aceitar um novo cão na casa com medo do sofrimento que sua futura morte causaria.
Um belo dia antes de eu ir para o colégio, a cachorra que fazia a guarda de um colégio para crianças com deficiência mental o lado do prédio dos meus avós teve cria . Nasceram vários viralatinhas pretos e brancos, e de repente meu avô saiu e reapareceu com duas cachorrinhas. Eu não sabia ainda, mas uma era para uma conhecida da minha avó, a outra era nossa.
Estava calor e meu avô colocou seu sungão e pôs-se a lavar as duas cachorrinhas... um mar de pulgas saia junto com a água suja do banho. Minha avó as enxugou em uma toalha laranja, chegou perto de mim com a menorzinha e disse: Aqui está, você não queria então... você escolhe o nome dela, é sua! Eu tinha apenas quatro anos e nenhuma imaginação pensei rápido; estava passando "os Flinstones" na TV e eu disse... " já sei! Eu quero Pedrita!". "Então é Pedrita, disse minha avó animada".
Eu não entendi muito bem porque eu tive o privilégio de escolher o nome dela, e não entendo até hoje, afinal esse privilégio de costume seria da minha tia mais nova (a retardada); acho que uma vez na vida pelo menos minha avó me deu uma oportunidade de passar a sua frente (talvez porque minha avó estivesse ansiosa e ela (a tia) não estivesse em casa) e eu escolhi um nome surrealmente infantil, mas enfim... garantiu um momento de alegria infantil quase infinita para mim!
A Pedrita quando filhote, parecia um chuchu, pelinho comprido, preto e branco, "barriguinha verminosa rs" fuço branco e preto, um doce de filhote, calminha. Sua primeira cama foi a tampa de uma caixa de brinquedos forrada com uma colcha de chenile cor de laranja. Depois meu avô fez uma cama sob medida para ela, com colchãozinho, acabou mesmo dormindo na cama dos meus avós durante quase toda vida.
Eu amava muito a Pedrita, mas ela sempre foi uma seguidora leal da minha avó, rosnava, me mordia, só era companheira mesmo quando eu estava comendo e ela estava pedindo um pouquinho do que eu comia...
Quando a Pedrita tinha sete anos, eu estava no ponto de ônibus com a minha tia (a mais velha - do inferno) esperando para ir ao colégio, quando alguém atirou uma coisa marrom de dentro de um carro. "olha jogaram um rato, ela disse!" - "ratos não tem orelhas pontudas" eu retruquei. Um ônibus vinha a toda, prestes a atropelar o filhote, mas minha tia se colocou na frente e ele freiou. A cachorrinha fugiu desesperada para dentro de um prédio. Eu pulei o muro e fui lá pegá-la. Ela estava morrendo de medo, muito suja e se tremendo toda.
Como a Pedrita não era de muitos amigos, meus avós preferiram não levar a filhota que era muito pequena para junto dela, e ela ficou "guardada" na garagem de um apartamento vazio do prédio dos meus avós. Minha mãe ao ficar sabendo do ocorrido, pediu para ficar com a cachorrinha.
Decidimos juntas dar o nome de Candi. Açúcar candi, dizia a minha mãe, é marrom da cor dela. Eu era fascinada por aquela criaturinha de fuço marrom. Muito simpática. Minha companheirinha, passeávamos juntas, brincávamos a beça, eu a vestia, jogava farinha na sua cara para que ela ficasse branquinha... assistíamos TV juntas.
Tudo era incrível, até que um dia fomos viajar e a deixamos na casa da minha avó. Quando voltamos minha avó disse a minha mãe que queria a cachorrinha para ela, e minha mãe sem pensar muito a deu. Eu fiquei arrasada, minha mãe proferia mil desculpas como "ah o nosso prédio não aceita mais cães" ou "lá ela fica melhor tem mais companhia" mais isso melhorava em nada o meu sofrimento, e mesmo após ter implorado vezes e mais vezes a minha mãe para que ela não fizesse aquilo, mais uma vez, ela preferiu ser filha da minha avó, a ser minha mãe.
Candi passou da terna docilidade a total ferocidade... ficou agressiva, possesiva, não gostava mais de brincar, rosnava, avançava à toa no meu avó, com requintes de crueldade. Fazendo a alegria mórbida das minhas tias e da minha avó que o chamavam de covarde. Chegou a um ponto que ele parou de dormir na mesma cama que minha avó, pois a Candi avançava nele se isso acontecesse.
Além de todos esses absurdos, ela passou a ter problemas de saúde, teve dois derrames, pressão alta, surtos de agressividade sem o menor sentido. Em pouco tempo não se parecia mais em nada com a delícia de cachorrinha que nós criamos.
Pedrita morreu aos 19 anos no ano de 2002 e eu fiquei arrasada. Foi muito triste perde-la, eu praticamente não me lembrava da vida sem ela. Candi no dia seguinte a morte da Pedrita mudou, estava toda grisalha. Passou um ano infernal, se auto mutilou, teve diversos problemas de saúde até que no começo de 2003 eu a flagrei convulsionando em baixo da cama dos meus avós.
O médico veterinário disse várias coisas sobre aquele estado, e prescreveu gardenal. Como a minha tia do inferno se acha uma grande sábia, se recusou a dar a droga para a Candi, dizendo ser um absurdo dar uma droga tão forte a um cão. Candi, não medicada por sua vez foi sofrendo convulsões mais e mais fortes e frequentes até convulsionar quase 6 vezes por dia, no final ela vivia dopada e quando voltava a si, ou convulsionava, ou não nos reconhecia.
No dia 1 de maio de 2003, quando ela tinha 12 anos, meus avós decidiram sacrificá-la.
Foi muito difícil, minha mãe tentou me consolar me levando a uma churrascaria super chique, mas ela mesma acabou se debulhando em lágrimas durante o almoço e eu tive que consolá-la. Chamei meu amigo J. que me fez companhia durante aquela noite, e me consolou em silêncio, até porque eu não conseguia me expressar muito naquele momento.
Algum tempo depois, eu estava muito, mas muito triste com tudo que tinha acontecido, até que a minha ex surgiu com alguns pelinhos da Candi, que ela havia guardado para me dar em um momento oportuno. Só eu sei como aquele gesto me fez bem.
A minha dor persistiu durante algum tempo até que em 2005 eu estava sozinha em casa navagando na internet em uma noite insone e encontrei uma ninhada de fêmeas para doação.
Imediatamente entrei em contato com as meninas e peguei mais informações. Isso foi numa terça ou numa quarta e no domingo eu estava dirigindo com minha Fioninha para casa.
Ela veio em cima de uma caixa de pizza, dormindo. Coisa mais linda, toda marronzinha e branca, com o fuço branco e marrom.
No dia que ela chegou eu me perguntei por várias vezes se era a coisa certa ter mais um cão... até que em um momento ela veio, abanou o rabinho e me deu uma lambida no nariz, aí eu tive certeza que era a coisa certa.
Eu nunca amei uma criatura tão rápido quanto eu amei a Fifi.
É claro que a minha avó tentou pegá-la também, mas eu já estava crescida o suficiente para impedir.
Só eu sei a importância que a Fiona teve na minha vida naquele momento eu estava me sentindo muito sozinha e ela preencheu uma lacuna sem tamanho! Talvez ela com seu coração de cão tenha noção do bem que ela me faz!
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
o mecanismo da angustia
Meu analista falava e repetia isso constantemente e infelizmente eu sou obrigada a concordar com ele... isso é um puta, um mega, um super problema do caralho.
Minha mãe volta e meia olha para mim com um olhar de dó (o mecanismo de convencimento da minha mãe oscila entre a chantagem emocional e o ódio incondicional). E manda uma bomba, ou um torpedo do tipo... ah se houvesse uma cura para a doença da sua avó... porra caralho, será que ela não vê mesmo que a vida ficou infinitamente melhor depois que minha avó foi forçadamente deposta do cargo de déspota esclarecida, graças a sua doença e por consequência deixou as outras peças do tabuleiro um pouquinho mais livres para se moverem?
Pelo visto tem peça que nasce grudada no tabuleiro, ou pelo menos colada com fita dupla face, mesmo que descole, sempre se gruda de novo em outro ponto.
Ah quando ela fala isso eu sinto ódio. Mas o problema não é isso, meu ódio é simples e evidente demais. O problema real eu acho, acontece quando a minha mãe tenta impor sua ignorância de peão mandado sobre mim... um exemplo disso, foi seu disparo mais recente, de ontem a tarde: "fiquei tão triste - pausa- suspiro- quando sua avó percebeu que não poderia dar a sopa para o seu avô, o queixo dela começou a tremer e ela começou a chorar" ... frase inocente? Inocente é história para boi dormir, isso é uma artimanha para me prender no emaranhado angustiante que minha avó sustentou por anos, e pelo visto recrutou bem suas soldadas para continuar prendendo seus descendentes nesta teia nojenta e grudenta.
As frases é claro, nunca vem sozinhas... vem acompanhadas de conversas bizarras como relatos de sonhos escatológicos (nunca vi uma criatura com tanta pulsão anal quanto a minha mãe) também de uma sensação de ser um ser perfeito, muito senhor de sua razão e sem grandes problemas. E finalmente para dar o acabamento o creme chantilly da vida da minha mãe... uma recusa permanente por ajuda, que evidentemente só poderia vir "de fora" porque ser filha da minha avó não é fácil não.
Mas acho que da mesma forma que minha mãe se conformou com a posição de "pobre trabalhora" que a minha avó lhe impôs, ela também deve amar sua posição de peão do reino decadente da minha avó. Só pode ser, já que a criatura faz de tudo para se manter na mesma posição!
Minha tia mais velha pode ser do inferno, mas pelo menos optou por tentar destronar minha avó, já que é para ficar maluca e sem dentes junto com a velha...
Ainda no mesmo dia, minha mãe tentava me convencer de que a tristeza de minha avó com relação ao cuidado do meu avô era um sinal de lucidez... lucidez?!?!?!!?
Por que minha mãe precisa tanto se agarrar na imagem de minha avó lúcida? Minha avó não tem memória recente, não retem nada, tá pior que passarinho, pergunta uma coisa, daqui a 1 minuto pergunta a mesma coisa, mexe e remexe nas mesmas coisas procurando algo que nem ela sabe o que é porque já se esqueceu... vê sexo em tudo, acha que a emprega se masturba no banheiro e que meu avô faz sexo com os enfermeiros...
O pior de tudo é que ela tenta empurrar seus delírios para cima de mim.
Insiste nas suas ilusões, me questiona sobre minhas colocações... um inferno. As vezes para me defender, tenho que ficar num vai e vem de argumentos para manter minha palavra, eventualmente eu acabo de saco cheio e vou para o meu quarto, se o saco explode vou para a minha casa. Atualmente é impossível dividir o teto com a minha mãe twenty four seven.
Entre os salpicos de ódio sinto tristeza ao perceber que minha mãe precisa sempre estar na posição submissa a qual minha avó lhe impós a mais de sessenta anos atrás.
Pior ainda é saber que ela prefere alimentar minha angústia com essa ladaínha a se colocar na postura de mãe e proteger a sua filha... a em nome da sua posição de filha de minha avó ela tantas vezes se esquivou.
O irmão urso
Nesses quinze anos de irmandade nós só brigamos sério uma vez, e só paramos de nos falar durante 2 dias.... Mas isso foi ha tempos, em março do ano 2000. Após esse incidente eu que era tão inexperiente nos meandros do amor (de namorado) aos poucos eu fui aprendendo que o irmão urso tem suas imperfeições, mas quando se trata do amor romântico quem não as tem?
Eu mesma já deixei o irmão urso na mão porque estava embriagada por um novo amor.
Depois disso aprendi que o que importa na verdade é a nossa amizade, e isso é inabalável.
Em 1999 eu e o irmão urso ficamos muito próximos por certas coincidências do destino, e passamos a nos ver todos os finais de semana. Naquele ano em certa ocasião estávamos escutando música alta e cantando no carro até que no intervalo entre uma música e outra ele me disse que eu tinha sido a melhor coisa que havia acontecido a ele naquele ano. Eu nunca me esqueci daquele momento.
Aliás uma das grandes qualidados do irmão urso é estar sempre lá quando eu preciso, seja nos momentos bons ou nos ruins. Ele estava ao meu lado quando eu dirigi meu primeiro carro. Quando eu tive alergia a tinta de cabelo e fiquei toda empelotada e vermelha ele veio ficar comigo porque eu estava entediada e não podia sair, quando bateram no meu carro no meio da madrugada ele foi lá me fazer companhia até a polícia chegar, quando minha ex namorada terminou comigo e eu fiquei completamente perdida, sem noção do que era sonho e do que era realidade o irmão urso não saiu do meu lado, ficava sempre comigo, me escutando falar sem parar mas ficando quase sempre em silêncio... simplesmente acenando ou abanando a cabeça.
Uma outra característica que o irmão urso tem (e são poucas as pessoas do meu convívio que me fazem sentir assim) é a capacidade de me deixar feliz e orgulhosa por suas realizações. Já aconteceu mais de uma vez, mas recentemente o irmão urso está morando em uma toca nova, desta vez uma toca só dele, e eu estou muito, mas muito feliz por ele... literalmente contagiada pela sua nova conquista.
Além de tudo isso, nós temos um dialeto só nosso, que vem sendo construído ha anos com uma enorme riqueza de expressões, desde simples substantivos até adjetivos que dão qualidades as coisas; e essa língua, só é compartilhada por quem é muito próximo, pois não é qualquer um que é bem vindo nesse nosso pequeno universo particular.
É claro que todas as minhas namoradas tem que passar pelo crivo e pela aprovação do irmão urso, e vice versa!
As vezes o irmão urso me preocupa... pois por vezes é desleixado com sua saúde, e nesses momentos eu não consigo parar de pensar sobre o que seria de um canino como eu sozinha nesta selva urbana, sem um irmão urso para me proteger?
domingo, 18 de setembro de 2011
Rupert Bear
Depois tanto afeto, e carinho transbordantes, fiquei pensando se a maioria das pessoas que eu conheço, ou que fazem parte do meu círculo de amizades conseguem sentir esse tipo de ternura. E acabei chegando a conclusão que a maioria delas é incapaz, ou esconde essa habilidade tão bem que eu pelo menos não percebo sua capacidade de completar-se com esse sentimento que parece sutil mas que pode se tornar enorme.
O próximo passo foi racionalizar a forma como eu sinto ternura por algo. Primeiramente pensei que a responável pelo tal sentimento é a minha enorme memória, e graças a ela consigo reviver momentos que se passaram a dez, quinze e em alguns casos até mais de vinte anos atrás praticamente com a vivacidade do presente. Portanto, por um segundo, mesmo estando na cama com minha amada e atual namorada quando eu acordei hoje domingo 18/09/2011 fui praticamente teletransportada para a manhã de quinta feira 18/05/2000.
Eu podia sentir a rigidez do colchão, o perfume dos lençois recém trocados, os raios de sol batendo pelas frestas da veneziana que esquentavam o pé da cama, o cheiro de novidade que pairava no ar, o olhar de carinho afeto e esperança no rosto de minha ex ao me ver ao seu lado, além é claro da tal musiquinha que inistia em tocar.
Voltando para a ternura, pensei também se nós nascemos com algum tipo de habilidade para senti-la que pode ser alimentada ou oprimida dependendo da vivência e da criação de cada um.
No meu caso, além da grande memória, existiu uma pessoa que sempre alimentou a minha capacidade de sentir ternura... meu avô. Eu cresci muito próxima desse homem que exalava ternura... no jeito que ele escrevia suas poesias apaixonadas e as declamava ao som de música classica, no seu olhar quando ele pegava a foto de seu primeiro cão e choramingava de saudade, no toque carinhoso dele na pele e nos cabelos de minha avó, e nas flores que ele trazia para nós (minha avó, eu e minha tia mais nova - a retardada do outro post) no dia dos namorados.
Minha avó recebia um bouquet de rosas vermelhas, e para minha tia e para mim ele trazia aqueles potinhos cilíndricos de plástico transparente contendo uma rosinha branca ou amarela.
Eu sempre achei aquilo terno, gentil, uma maneira de se sentir amada, incluida... até hoje quando vejo o jeito que meu avô pega no meu rosto com sua mão tremula por conta de seus quase noventa anos de vida, o único sentimento que vem a minha cabeça é a ternura.
De outra maneira minha mãe teve um pingo de responsabilidade nisso, já que certa vez quando eu era bem pequena, minha mãe me disse que a ternura em francês era mais terna do que em português... tendresse dizia ela, "é muito mais ternura do que a nossa ternura". Eu sempre achei mais pomposo do que terno para falar a verdade
Por outro lado conforme os minutos foram passando, eu fui ficando um pouco decepcionada com meus sentimentos de ternura com relação a minha ex. Talvez porque tenho a certeza que da parte dela, a tal ternura por aquele momento, se existiu, ficou naquela manhã; ou talvez tenha ido e vindo no decorrer dos anos em que fomos mais próximas... mas de certa forma, mesmo depois do nosso término ela teve "deslizes" de ternura como nas palavras de carinho que ela me disse logo depois que eu operei os olhos.
Mas de certo quando cada uma foi para o seu lado ela com sua vida e eu com a minha, a ternura pelo menos com relação a mim, do lado de lá parece ter morrido completamente. Talvez ela precise disso para continuar com a vida dela.
Mas eu por minha vez agradeço aos céus todos os dias pela minha atual namorada que é uma pessoa capaz de carregar baldes de ternura e afeto no peito, e apesar da pose de insegura com relação ao meu amor tenha se entregue a mim, com a mesma intensidade e ternura com que eu me entreguei a ela.
a musiquinha do tal momento com a ex para quem ficou curioso: http://www.youtube.com/watch?v=BcSzqqaidbA&ytsession=dmmPmbw3jDpgddmVbncO5LQAjzVzoVxWJl_fPVqc2oolXOn2veCdpXDHccekoR9_wd44GGc6YnNJ4w53qHt11Ri71mWU9oapJ-5R_N_glm_nIBTfPiNfPHNwxd_Vg4p8oWz0I6DBAPfSKgNAY86cMoQTBgbAl96f1TNyxqFkc1UXu-Xuf4n8n0vYYaIg0dgdukTj1mQYqF65G_-L77oiHOrzkjS6Zcxulunv6WucboYbWlH7wCh_xZhf5DnX-rtGZXDyHgrnAetYjGW1RY8ezoDzUOAU4aJtzfq3DKRw-dw
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Tender
Estava passando um especial contando toda a trajetória do Blur. Fiquei bem animada com o programa porque muitas músicas do começo da carreira do Blur como "there´s no other way" e "boys and girls" lembram muito minha adolescencia e em especial a relação (amizade só tá!) com uma querida amiga.
Eu estava uma pilha naquele dia e fui assistindo o especial e vendo os sucessos e percalços experimentados pela banda e seus componentes. No começo dos anos 2000 a banda estava práticamente se desmanchando. Diversos problemas acabaram por separar o Blur pouco tempo depois daquilo. Damon Albarn o vocalista e o guitarrista Graham Coxon por exemplo não se falaram por alguns anos devido a dimensão das brigas entre eles.
Em 2007 ou 8 (não lembro bem) O baixista Alex James encontrou Damon Albarn por acaso em um parque e propos uma reunião da banda. Bem resumindo a história, graças ao reencontro o Blur se apresentou em 2009 no festival de Glastonburry e fechou o show com a música Tender que funcionou como uma espécie de "mantra da paz" entre os membros. (quanto a música, eu já adorava tender, muito antes disso, pois minha ex namorada havia me dado um CD do blur de presente em 2001 com essa música e eu fiquei viciada nela por um bom tempo)
No dia seguinte eu estava dirigindo meu carro meio pilhada até que a música (tender) começou a tocar no rádio. Aquilo teve um efeito muito tranquilizante, e depois disso eu acabei colocando tender num pendrive e escutando "maniacamente" no rádio do carro, uma vez após a outra, como se isso tivesse virado uma espécie de um mantra... um catalizador do bem na batalha psicológica com a tia do inferno...
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Tia do inferno
No sentido mais literal o possível da palavra... provavelmente porque ela segue a risca o legado de horrores e angústias que minha avó impôs (somente para satisfazer seus desejos) a praticamente duas gerações subsequentes a sua.
Agora minha avó está velha e gagá, e minha tia "cuida" (leia-se mora com eles igual a um verme sanguessuga) que só sai de casa para comer,tomar suas boas biritas, e remexer no dinheiro do velho (meu avô). O dinheiro do meu avô (soldo de um oficial aposentado da marinha) antes do adoecimento mental de ambos (avô e avó) tinha 3 destinos certos: o pagamento de contas da casa, satisfazer aos desejos femininos da minha avó (tecidos para costura, maquiagem Helena Rubinstein - um hit entre as vovís de classe média alta nos anos 90 - avon, salão de cabelereiros e afins) e o sustento de minha tia mais jovem. (a tia retardada)
Em 1994 minha avó em um golpe de mestre começou a "construir" o caminho para minha tia mais velha (a do inferno) se sentir dona da bufunfa não só a do meu querido avô, assim como de toda família... Ela em uma jogada baixa e desleal, enganou minha mãe, o meu tio e a tia retardada e colocou todos os três imóveis da família no nome da tia do inferno.
A tia do inferno é pródiga, ganha bem, mas sempre gastou mais do que tem. Acha certo viver pendurada em impréstimos, dá gorgetas de mais de 100 reais ao garoto da padaria, gasta o que tem e o que não tem, deve tanto que vive encrencada e sempre que pode ameaça a mim e a minha mãe de nos tirar de nosso imóvel. (está no nome dela, já consultei advogados, é só ela querer)
Como ela se sente dona do dinheiro e dos bens, e minha avó está gagá demais para discordar, já a algum tempo minha tia se sente dona também da aposentadoria do meu avô.
Ela "administra" esse dinheiro como ela acha que deve. Faz compras de mês no mercadinho da esquina, dá 500 reais por mês para o porteiro comprar pão, compra na farmácia da esquina que custa o triplo do preço porque o dono vende remédio de prescrição presa sem receita para ela e por aí vai.
Quando questionada sobre seus absurdos delirantes a tia do inferno grita, cospe fogo (afinal ela é do inferno) e eu já tentei de tudo que uma pessoa sã poderia tentar contra esse dragão alado.
A tia do inferno está doente fisicamente e mentalmente. Quase morreu em 2009. Mal cuida da sua saúde, não tem vários dentes, o cabelo é completamente desleixado... um pedaço do seu dedo caiu, tem problemas de pressão, mas pelo menos banho ela toma... ufa, podia ser pior.
Antes eu tinha a impressão de que ela fazia isso (largava a própria saúde) porque a ligação com a minha avó era tão forte que ela tinha decidido se deixar morrer junto com ela após o diagnóstico de alzheimer e dos derrames feios que minha avó teve em 2008... hoje eu tenho a impressão que ela quer não quer só morrer, mas matar todo mundo junto de tanto que ela enche o saco.
Ajuda psiquiátrica já tentei, é difícil dar conta de um doente quando ele não quer se tratar;
Não existe argumento válido com a tia do inferno... toda proposta razoável para resolver um problema simples é rebatido com uma loucura desencabida. Por exemplo... hoje eu falei: olha fulana, meu avô ganha X e está gastando X+5, vamos rever alguns gastos? Resposta da tia do inferno: "velho tem mais é que ficar devendo, morre e não paga porra nenhuma para ninguém".
É esse o nível.
A tia do inferno, me enlouqueceu me levando quase a falência fisíca e a doença ha poucas semanas, e hoje eu tive muito medo que tal evento voltasse a ocorrer... devido a nossa discussãozinha ao telefone.
Isso tudo ocorrendo no pós ataque histérico do meu ex-analista ladrão filho de uma puta que resolveu surtar no meio dessa situ toda. Ficou com todo meu pagamento adiantado (sim o mercenário me cobrava adiantado) desse mês não devolveu meu dinheiro mesmo tendo me atendido só uma vez (mas isso é papo para outro post) Mas se um dia ele ler isso aqui vai o recado... Você profissional da psicanálise que me atendeu por quatro anos e meio no seu consultório chique cheio de livros intelectualoides com seu diva le corbusier é o seguinte: Ato analítico de cu é rola, filho da puta, eu te pagava pouco né? Mas devolver meu dinheiro que é bom porra nenhuma né malandro?
Enfim. Voltando a tia do inferno... até pouco tempo atrás ela andava dando uns sopapos nos meus avós... um dia meu avô me disse ter devolvido na cara dela, e como todo bom covarde ela nunca mais bateu nele e passou a "se dedicar" só a minha avó.
Bem, além das pancadas, meu avô que sofre de mal de parkinson foi impedido de frequentar um médico durante quase dois anos. Por que? Porque ela o medicava com apoio de um "médico" de família lá de botafogo, que prescrevia medicações controladas liberava receitas presas por telefone, e dava diagnósticos a distância.
Na cabecinha oca dela (ela se acha muito, mas muito inteligente) o médico não precisa ver o paciente. A "descrição" que ela dá dos eventos seria tão fiel que suprimiria a presença dos velhos na frente do profissional da saúde.
Pois bem, após uma ameaça bem clara de queixa de cárcere privado na delegacia, consegui levar meu avô ao médico, que por sua vez nos informou que a medicação estava toda errada... e que ele poderia ter tido uma síncope. Feitas as devidas correções paguei muito caro por ter oferecido esse cuidado ao meu avô. Minha tia me azucrinou tanto, fez tanta tortura psicológica que eu surtei. Tenho 32 anos e tive dores no peito e no braço esquerdo depois de tanta encheção de saco non stop.
Quanto a minha avó que ela afirma cuidar com muito esmeiro, hoje em dia fede a urina, e não toma banho a mais de 1 mês.
Levei quase dois anos reclamando o direito de colocar enfermeiros dentro daquela casa para cuidar dos velhos, só consegui pois meu avô caiu no chão um dia e ela não conseguiu levantá-lo... é obvio, como uma mulher de 66 anos doente de 1,58, vai levantar um idoso de 1,70 e mais de 80 kilos?
Mas os enfermeiros não podem tocar na minha avó, e segundo ela "banho, sua avó só toma se quiser". Homens não vão tocá-la.
Caralho nem a sapatão mais sapatão que eu conheço tem tanto ódio de homens!
A gritaria advinda da casa dos meus avós era tanta que ha alguns meses os vizinhos do prédio foram a delegacia prestar queixa de maus tratos.
Como a tia do inferno tem cu, também tem medo, e desde a denuncia e da intimação para depor, os tapas e gritos com os velhos melhoraram, mas como todos que detem o poder de um núcleo durante muito tempo, ela não larga do osso totalmente e continua de mansinho impondo o inferno.
A tia do inferno quer que todos vivam no inferno junto com ela, e cada um dos irmãos dela, dá o seu jeito para fugir. Meu tio quase não chega mais perto dela, almoça com a criatura umas duas vezes por mês faz tempo, mas não visita mais meus avós. Minha tia mais nova, nem se interessa com o que se passa com o pai e com a mãe, e sua relação com a tia do inferno se limita a pegar todo dinheiro que ela possa o mais rápido o possível. Já minha mãe parece ser a única que de verdade não tem medo da tia do inferno... vai comigo na casa dos meus avós 1x por semana e ajuda das maneiras que ela pode (as vezes a maneira da minha mãe é pouco para mim) mas de fato é muito melhor que nenhuma ajuda.
Eu queria que a vida tanto da tia do inferno quanto dos meua avós que vivem no inferno com ela fosse menos infernal, até porque esse inferno foi sendo construído com a conivência deles (meus avós durante muitos e muitos anos) e durante muito tempo tive muito carinho e consideração por essa pessoa, que apesar de hoje ser assim, já me ajudou muito na vida e nem sempre foi do inferno.
Porém hoje ela encheu tanto minha paciência que eu só quero penso em fazer com que as fagulhas de inferno que muitas vezes acabam me queimando toquem o mínimo possível em mim.
domingo, 21 de agosto de 2011
Zamora
Quando eu era adolescente MTV Brasil apresentou uma série de reality shows (as transmissões aqui no Brasil começaram entre 1995 e 1996 eu acredito) chamados the real life. Foi uma febre entre os "então"adolescentes da minha idade. Até que em 1997 foi ao ar a temporada 3 do show que se passou em São Francisco.
No primeiro episódio um rapaz se assume homossexual e se diz portador do vírus HIV. O show foi ao ar em 1994 portanto a terapia antiretroviral estava engatinhando ainda. Ficou bastante claro para mim pelo menos, naquele momento que a sobrevivência daquele rapaz era uma questão bastante frágil, uma vez que todos nós sabíamos o que acontecia naquela época com quem pegava Aids mais cedo ou mais tarde...
Curiosa no auge dos meus 17-18 anos eu assisti o programa todos os dias, não perdia nenhum episódio, mesmo tendo que acordar cedo para ir ao colégio no dia seguinte. E o que vi foi um homem definhando no reality show mais real que eu já havia visto em toda a minha vida. Tudo era mostrado, seus namoros, as brigas com colegas de casa, até relatos da sua experiência médica eram divulgados... como, por exemplo, a sua contagem de células tcd4 que na época estava em 32 e caindo. O que é surreal hoje em dia, o tratamento costuma começar muito antes do indivíduo apresentar a níveis tão baixos. A sensação mais presente que eu tinha era a proximidade de sua suposta morte. Mesmo que naquela época eu não soubesse o que significava isso eu percebi que a coisa era séria.
Cada uma das temporadas desse programa era acompanhada por um reencontro das pessoas que faziam parte do programa. Porém, a MTV Brasil nunca transmitiu o reencontro dessa temporada e eu nunca entendi o porquê. No último episódio, porém eles anunciaram que Pedro Zamora, o rapaz com HIV, havia morrido um dia após a transmissão do último episódio daquela temporada.
Eu fiquei desesperada. Após o colégio eu procurei uma igreja para rezar por ele, e eu não achei nenhuma aberta, então parei na porta de uma igreja fechada e comecei a rezar assim mesmo.
Foi uma época difícil para mim, lidar com a morte de um rapaz tão jovem tive uma sensação horrível.
Hoje 15 anos depois estou aqui trintona e supostamente vacinada, senhora de mim e não sei por que, me lembrei de Pedro Zamora. Pesquisei sobre ele hoje na internet e vi que sua trajetória foi acompanhada em rede nacional praticamente até o dia de sua morte.
Em 2008 fizeram um documentário sobre a sua vida, chamado Pedro, que eu baixei e assisti, bom o filme!
Pedro Zamora, morreu com 22 anos no final de 1994. Ele havia descoberto a doença 5 anos antes em 1989 e decidiu que iria passar os últimos anos de sua vida trabalhando com prevenção face a face e esclarecimentos a jovens em todo o país sobre os riscos relacionados ao vírus.
Hoje eu penso que Pedro devia saber há quantas andava a sua saúde antes de ingressar no programa e fez isso talvez de forma não consciente para mostrar em cadeia nacional o que era conviver com o HIV, procurando talvez evitar o preconceito e conscientizar as pessoas será? O que me sensibilizou muito, de várias maneiras, e para minha surpresa ainda me sensilibiza.
Ontem fiquei dormindo e acordando a noite toda pensando nessa maluquice toda, juntando os pauzinhos.
Pesquisar o HIV instiga as minhas mais profundas curiosidades. Quando a epidemia estourou eu tinha 4-5 anos de idade. Eu me lembro vagamente da comoção e de pessoas definhando ao vivo na televisão. Famosos morrendo, homossexualidades denunciadas... Este foi o momento em que definiram-se os estigmas e os "culpados" e muitas pessoas envolvidas viam-se acabaram embarcando nesta fantasia que de certa forma vive até hoje.
Hoje as coisas parecem ter mudado, o politicamente correto nos impede de chamar alguém de aidético e mais ainda de associar a doença a vivência homossexual masculina. Mas no duro isso acontece?
Acho que de certa forma não. O “efeito cazuza” perdura nos nossos imaginários e continua atuando para além da razão. Como vemos isso? Quando Marcelo Dourado afirmou que só heterossexuais com vivências homossexuais se contaminariam; ou ainda, quando uma médica formada concorda com isso, e insiste em impedir um homossexual assumido de doar sangue, já que segundo ela, ele “faz parte de um grupo de risco, e que homossexuais pegam mais Aids”. Essas pessoas pensam, e agem dessa maneira porque tem o apoio de uma lei federal, que impede homossexuais de doarem sangue em bancos do governo. O que isso significa? esquece-se de tudo aquilo que o próprio saber médico tem descoberto durante todos esses mais de 30 anos de epidemia. Porque o imaginário da doença ainda fala mais alto do que a lógica as vezes.
A resposta da sociedade para a epidemia foi patética, ignorou-se o risco por muito tempo por crer que se tratava apenas de uma “doença de gays”. Erro fatal. Estigmatização bestificante altamente prejudicial para a condução da epidemia, que construiu um imaginário para a doença, ancorado em conceitos preconceituosos e equivocados.
O segundo grande erro foram as estratégias e polítcas de prevenção e quase todas dispensaram a massificação das informações epidemiológicas e se basearam em ordens imperativas como: “use camisinha”, “a AIDS mata”, “cuide-se”, “quem vê cara não vê AIDS”, entre outros slogans. A outra estratégia de prevenção por sua vez infligia o medo, imagens de morte, letras garrafais vermelhas, supostos cadáveres ambulantes. Somos pouco informados e muito arrebanhados. Essa é a receita infalível da ignorância.
A primeira vez que eu conheci um portador do HIV foi em 1998, mas ele faleceu e eu não tinha a menor idéia de ele era HIV + portanto eu não pude fazer nenhuma espécie de julgamento com relação a isso.
A segunda vez foi em 2000. O namorado do meu melhor amigo na ocasião era HIV+ e eu tive uma surpresa maravilhosa, o cara era legal demais. Confesso que da primeira vez que fui encontrá-lo eu tive medo de ofendê-lo ou de constrangê-lo de alguma forma e fiquei muito nervosa. Mas o cara era tão legal que sinceramente, depois daquela experiência conheci vários outros soropositivos e sinceramente, eu nem me lembrava que existia do detalhe das tais 3 letras.
Para quem ficou curioso sobre Pedro Zamora eis o link da wiki que fala mais dele.
http://en.wikipedia.org/wiki/Pedro_Zamora