quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Tender

Ha alguns meses atrás, quando eu estava no meio de uma batalha psicológica interminável com a tia do inferno, quase tendo uma síncope, eu cheguei em casa a noite, botei meu jantar no pratinho, esquentei no microondas, peguei minha bandejinha e liguei a TV.

Estava passando um especial contando toda a trajetória do Blur. Fiquei bem animada com o programa porque muitas músicas do começo da carreira do Blur como "there´s no other way" e "boys and girls" lembram muito minha adolescencia e em especial a relação (amizade só tá!) com uma querida amiga.

Eu estava uma pilha naquele dia e fui assistindo o especial e vendo os sucessos e percalços experimentados pela banda e seus componentes. No começo dos anos 2000 a banda estava práticamente se desmanchando. Diversos problemas acabaram por separar o Blur pouco tempo depois daquilo. Damon Albarn o vocalista e o guitarrista Graham Coxon por exemplo não se falaram por alguns anos devido a dimensão das brigas entre eles.

Em 2007 ou 8 (não lembro bem) O baixista Alex James encontrou Damon Albarn por acaso em um parque e propos uma reunião da banda. Bem resumindo a história, graças ao reencontro o Blur se apresentou em 2009 no festival de Glastonburry e fechou o show com a música Tender que funcionou como uma espécie de "mantra da paz" entre os membros. (quanto a música, eu já adorava tender, muito antes disso, pois minha ex namorada havia me dado um CD do blur de presente em 2001 com essa música e eu fiquei viciada nela por um bom tempo)

No dia seguinte eu estava dirigindo meu carro meio pilhada até que a música (tender) começou a tocar no rádio. Aquilo teve um efeito muito tranquilizante, e depois disso eu acabei colocando tender num pendrive e escutando "maniacamente" no rádio do carro, uma vez após a outra, como se isso tivesse virado uma espécie de um mantra... um catalizador do bem na batalha psicológica com a tia do inferno...


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tia do inferno

Minha tia mais velha é uma filha da puta.

No sentido mais literal o possível da palavra... provavelmente porque ela segue a risca o legado de horrores e angústias que minha avó impôs (somente para satisfazer seus desejos) a praticamente duas gerações subsequentes a sua.

Agora minha avó está velha e gagá, e minha tia "cuida" (leia-se mora com eles igual a um verme sanguessuga) que só sai de casa para comer,tomar suas boas biritas, e remexer no dinheiro do velho (meu avô). O dinheiro do meu avô (soldo de um oficial aposentado da marinha) antes do adoecimento mental de ambos (avô e avó) tinha 3 destinos certos: o pagamento de contas da casa, satisfazer aos desejos femininos da minha avó (tecidos para costura, maquiagem Helena Rubinstein - um hit entre as vovís de classe média alta nos anos 90 - avon, salão de cabelereiros e afins) e o sustento de minha tia mais jovem. (a tia retardada)

Em 1994 minha avó em um golpe de mestre começou a "construir" o caminho para minha tia mais velha (a do inferno) se sentir dona da bufunfa não só a do meu querido avô, assim como de toda família... Ela em uma jogada baixa e desleal, enganou minha mãe, o meu tio e a tia retardada e colocou todos os três imóveis da família no nome da tia do inferno.

A tia do inferno é pródiga, ganha bem, mas sempre gastou mais do que tem. Acha certo viver pendurada em impréstimos, dá gorgetas de mais de 100 reais ao garoto da padaria, gasta o que tem e o que não tem, deve tanto que vive encrencada e sempre que pode ameaça a mim e a minha mãe de nos tirar de nosso imóvel. (está no nome dela, já consultei advogados, é só ela querer)

Como ela se sente dona do dinheiro e dos bens, e minha avó está gagá demais para discordar, já a algum tempo minha tia se sente dona também da aposentadoria do meu avô.

Ela "administra" esse dinheiro como ela acha que deve. Faz compras de mês no mercadinho da esquina, dá 500 reais por mês para o porteiro comprar pão, compra na farmácia da esquina que custa o triplo do preço porque o dono vende remédio de prescrição presa sem receita para ela e por aí vai.

Quando questionada sobre seus absurdos delirantes a tia do inferno grita, cospe fogo (afinal ela é do inferno) e eu já tentei de tudo que uma pessoa sã poderia tentar contra esse dragão alado.

A tia do inferno está doente fisicamente e mentalmente. Quase morreu em 2009. Mal cuida da sua saúde, não tem vários dentes, o cabelo é completamente desleixado... um pedaço do seu dedo caiu, tem problemas de pressão, mas pelo menos banho ela toma... ufa, podia ser pior.
Antes eu tinha a impressão de que ela fazia isso (largava a própria saúde) porque a ligação com a minha avó era tão forte que ela tinha decidido se deixar morrer junto com ela após o diagnóstico de alzheimer e dos derrames feios que minha avó teve em 2008... hoje eu tenho a impressão que ela quer não quer só morrer, mas matar todo mundo junto de tanto que ela enche o saco.

Ajuda psiquiátrica já tentei, é difícil dar conta de um doente quando ele não quer se tratar;

Não existe argumento válido com a tia do inferno... toda proposta razoável para resolver um problema simples é rebatido com uma loucura desencabida. Por exemplo... hoje eu falei: olha fulana, meu avô ganha X e está gastando X+5, vamos rever alguns gastos? Resposta da tia do inferno: "velho tem mais é que ficar devendo, morre e não paga porra nenhuma para ninguém".

É esse o nível.

A tia do inferno, me enlouqueceu me levando quase a falência fisíca e a doença ha poucas semanas, e hoje eu tive muito medo que tal evento voltasse a ocorrer... devido a nossa discussãozinha ao telefone.

Isso tudo ocorrendo no pós ataque histérico do meu ex-analista ladrão filho de uma puta que resolveu surtar no meio dessa situ toda. Ficou com todo meu pagamento adiantado (sim o mercenário me cobrava adiantado) desse mês não devolveu meu dinheiro mesmo tendo me atendido só uma vez (mas isso é papo para outro post) Mas se um dia ele ler isso aqui vai o recado... Você profissional da psicanálise que me atendeu por quatro anos e meio no seu consultório chique cheio de livros intelectualoides com seu diva le corbusier é o seguinte: Ato analítico de cu é rola, filho da puta, eu te pagava pouco né? Mas devolver meu dinheiro que é bom porra nenhuma né malandro?

Enfim. Voltando a tia do inferno... até pouco tempo atrás ela andava dando uns sopapos nos meus avós... um dia meu avô me disse ter devolvido na cara dela, e como todo bom covarde ela nunca mais bateu nele e passou a "se dedicar" só a minha avó.

Bem, além das pancadas, meu avô que sofre de mal de parkinson foi impedido de frequentar um médico durante quase dois anos. Por que? Porque ela o medicava com apoio de um "médico" de família lá de botafogo, que prescrevia medicações controladas liberava receitas presas por telefone, e dava diagnósticos a distância.

Na cabecinha oca dela (ela se acha muito, mas muito inteligente) o médico não precisa ver o paciente. A "descrição" que ela dá dos eventos seria tão fiel que suprimiria a presença dos velhos na frente do profissional da saúde.

Pois bem, após uma ameaça bem clara de queixa de cárcere privado na delegacia, consegui levar meu avô ao médico, que por sua vez nos informou que a medicação estava toda errada... e que ele poderia ter tido uma síncope. Feitas as devidas correções paguei muito caro por ter oferecido esse cuidado ao meu avô. Minha tia me azucrinou tanto, fez tanta tortura psicológica que eu surtei. Tenho 32 anos e tive dores no peito e no braço esquerdo depois de tanta encheção de saco non stop.

Quanto a minha avó que ela afirma cuidar com muito esmeiro, hoje em dia fede a urina, e não toma banho a mais de 1 mês.

Levei quase dois anos reclamando o direito de colocar enfermeiros dentro daquela casa para cuidar dos velhos, só consegui pois meu avô caiu no chão um dia e ela não conseguiu levantá-lo... é obvio, como uma mulher de 66 anos doente de 1,58, vai levantar um idoso de 1,70 e mais de 80 kilos?

Mas os enfermeiros não podem tocar na minha avó, e segundo ela "banho, sua avó só toma se quiser". Homens não vão tocá-la.

Caralho nem a sapatão mais sapatão que eu conheço tem tanto ódio de homens!

A gritaria advinda da casa dos meus avós era tanta que ha alguns meses os vizinhos do prédio foram a delegacia prestar queixa de maus tratos.

Como a tia do inferno tem cu, também tem medo, e desde a denuncia e da intimação para depor, os tapas e gritos com os velhos melhoraram, mas como todos que detem o poder de um núcleo durante muito tempo, ela não larga do osso totalmente e continua de mansinho impondo o inferno.

A tia do inferno quer que todos vivam no inferno junto com ela, e cada um dos irmãos dela, dá o seu jeito para fugir. Meu tio quase não chega mais perto dela, almoça com a criatura umas duas vezes por mês faz tempo, mas não visita mais meus avós. Minha tia mais nova, nem se interessa com o que se passa com o pai e com a mãe, e sua relação com a tia do inferno se limita a pegar todo dinheiro que ela possa o mais rápido o possível. Já minha mãe parece ser a única que de verdade não tem medo da tia do inferno... vai comigo na casa dos meus avós 1x por semana e ajuda das maneiras que ela pode (as vezes a maneira da minha mãe é pouco para mim) mas de fato é muito melhor que nenhuma ajuda.

Eu queria que a vida tanto da tia do inferno quanto dos meua avós que vivem no inferno com ela fosse menos infernal, até porque esse inferno foi sendo construído com a conivência deles (meus avós durante muitos e muitos anos) e durante muito tempo tive muito carinho e consideração por essa pessoa, que apesar de hoje ser assim, já me ajudou muito na vida e nem sempre foi do inferno.

Porém hoje ela encheu tanto minha paciência que eu só quero penso em fazer com que as fagulhas de inferno que muitas vezes acabam me queimando toquem o mínimo possível em mim.

domingo, 21 de agosto de 2011

Zamora

Quando eu era adolescente MTV Brasil apresentou uma série de reality shows (as transmissões aqui no Brasil começaram entre 1995 e 1996 eu acredito) chamados the real life. Foi uma febre entre os "então"adolescentes da minha idade. Até que em 1997 foi ao ar a temporada 3 do show que se passou em São Francisco.

No primeiro episódio um rapaz se assume homossexual e se diz portador do vírus HIV. O show foi ao ar em 1994 portanto a terapia antiretroviral estava engatinhando ainda. Ficou bastante claro para mim pelo menos, naquele momento que a sobrevivência daquele rapaz era uma questão bastante frágil, uma vez que todos nós sabíamos o que acontecia naquela época com quem pegava Aids mais cedo ou mais tarde...

Curiosa no auge dos meus 17-18 anos eu assisti o programa todos os dias, não perdia nenhum episódio, mesmo tendo que acordar cedo para ir ao colégio no dia seguinte. E o que vi foi um homem definhando no reality show mais real que eu já havia visto em toda a minha vida. Tudo era mostrado, seus namoros, as brigas com colegas de casa, até relatos da sua experiência médica eram divulgados... como, por exemplo, a sua contagem de células tcd4 que na época estava em 32 e caindo. O que é surreal hoje em dia, o tratamento costuma começar muito antes do indivíduo apresentar a níveis tão baixos. A sensação mais presente que eu tinha era a proximidade de sua suposta morte. Mesmo que naquela época eu não soubesse o que significava isso eu percebi que a coisa era séria.

Cada uma das temporadas desse programa era acompanhada por um reencontro das pessoas que faziam parte do programa. Porém, a MTV Brasil nunca transmitiu o reencontro dessa temporada e eu nunca entendi o porquê. No último episódio, porém eles anunciaram que Pedro Zamora, o rapaz com HIV, havia morrido um dia após a transmissão do último episódio daquela temporada.

Eu fiquei desesperada. Após o colégio eu procurei uma igreja para rezar por ele, e eu não achei nenhuma aberta, então parei na porta de uma igreja fechada e comecei a rezar assim mesmo.

Foi uma época difícil para mim, lidar com a morte de um rapaz tão jovem tive uma sensação horrível.

Hoje 15 anos depois estou aqui trintona e supostamente vacinada, senhora de mim e não sei por que, me lembrei de Pedro Zamora. Pesquisei sobre ele hoje na internet e vi que sua trajetória foi acompanhada em rede nacional praticamente até o dia de sua morte.

Em 2008 fizeram um documentário sobre a sua vida, chamado Pedro, que eu baixei e assisti, bom o filme!

Pedro Zamora, morreu com 22 anos no final de 1994. Ele havia descoberto a doença 5 anos antes em 1989 e decidiu que iria passar os últimos anos de sua vida trabalhando com prevenção face a face e esclarecimentos a jovens em todo o país sobre os riscos relacionados ao vírus.

Hoje eu penso que Pedro devia saber há quantas andava a sua saúde antes de ingressar no programa e fez isso talvez de forma não consciente para mostrar em cadeia nacional o que era conviver com o HIV, procurando talvez evitar o preconceito e conscientizar as pessoas será? O que me sensibilizou muito, de várias maneiras, e para minha surpresa ainda me sensilibiza.

Ontem fiquei dormindo e acordando a noite toda pensando nessa maluquice toda, juntando os pauzinhos.

Pesquisar o HIV instiga as minhas mais profundas curiosidades. Quando a epidemia estourou eu tinha 4-5 anos de idade. Eu me lembro vagamente da comoção e de pessoas definhando ao vivo na televisão. Famosos morrendo, homossexualidades denunciadas... Este foi o momento em que definiram-se os estigmas e os "culpados" e muitas pessoas envolvidas viam-se acabaram embarcando nesta fantasia que de certa forma vive até hoje.

Hoje as coisas parecem ter mudado, o politicamente correto nos impede de chamar alguém de aidético e mais ainda de associar a doença a vivência homossexual masculina. Mas no duro isso acontece?

Acho que de certa forma não. O “efeito cazuza” perdura nos nossos imaginários e continua atuando para além da razão. Como vemos isso? Quando Marcelo Dourado afirmou que só heterossexuais com vivências homossexuais se contaminariam; ou ainda, quando uma médica formada concorda com isso, e insiste em impedir um homossexual assumido de doar sangue, já que segundo ela, ele “faz parte de um grupo de risco, e que homossexuais pegam mais Aids”. Essas pessoas pensam, e agem dessa maneira porque tem o apoio de uma lei federal, que impede homossexuais de doarem sangue em bancos do governo. O que isso significa? esquece-se de tudo aquilo que o próprio saber médico tem descoberto durante todos esses mais de 30 anos de epidemia. Porque o imaginário da doença ainda fala mais alto do que a lógica as vezes.

A resposta da sociedade para a epidemia foi patética, ignorou-se o risco por muito tempo por crer que se tratava apenas de uma “doença de gays”. Erro fatal. Estigmatização bestificante altamente prejudicial para a condução da epidemia, que construiu um imaginário para a doença, ancorado em conceitos preconceituosos e equivocados.

O segundo grande erro foram as estratégias e polítcas de prevenção e quase todas dispensaram a massificação das informações epidemiológicas e se basearam em ordens imperativas como: “use camisinha”, “a AIDS mata”, “cuide-se”, “quem vê cara não vê AIDS”, entre outros slogans. A outra estratégia de prevenção por sua vez infligia o medo, imagens de morte, letras garrafais vermelhas, supostos cadáveres ambulantes. Somos pouco informados e muito arrebanhados. Essa é a receita infalível da ignorância.

A primeira vez que eu conheci um portador do HIV foi em 1998, mas ele faleceu e eu não tinha a menor idéia de ele era HIV + portanto eu não pude fazer nenhuma espécie de julgamento com relação a isso.

A segunda vez foi em 2000. O namorado do meu melhor amigo na ocasião era HIV+ e eu tive uma surpresa maravilhosa, o cara era legal demais. Confesso que da primeira vez que fui encontrá-lo eu tive medo de ofendê-lo ou de constrangê-lo de alguma forma e fiquei muito nervosa. Mas o cara era tão legal que sinceramente, depois daquela experiência conheci vários outros soropositivos e sinceramente, eu nem me lembrava que existia do detalhe das tais 3 letras.

Para quem ficou curioso sobre Pedro Zamora eis o link da wiki que fala mais dele.

http://en.wikipedia.org/wiki/Pedro_Zamora

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

beetlebum

Because you're young
She's a gun
Now what you've done
Beetlebum
She'll suck your thumb
She'll make you come
Coz, she's your gun
Now what you've done

Eu sempre fui fascinada por doenças mortais e terminais. Por outro lado, a morte por muito tempo foi motivo de angústia extrema para mim, uma força paralisante que me impedia de fazer as coisas mais comuns presentes no universo da maioria dos adolescentes como, por exemplo, sair a noite com os amigos ou ir a uma boate.

Mas apesar de tanta angústia, ao mesmo tempo eu sentia uma atração quase irresistível por adquirir o máximo possível de informações sobre o mórbido.

Durante a infância, por exemplo, qualquer propaganda de prevenção em saúde que evocasse de alguma maneira o mórbido ou a morte, como as campanhas da Aids na TV nos anos de 1980, me deixavam tão apavorada que eu fugia da sala durante os comerciais dos programas de TV para evita-las.

E de fato, esse pavor não se extinguiu com o final da minha infância... a angústia me acompanhou por práticamente toda a adolescencia, e a sensação que eu tinha é que "o resto" ou seja minha vida era vivida nos intervalos da agonia, quando eu com muito esforço saia de dentro de uma carapaça dura para cacete e conseguia respirar aliviada.

Quando eu tinha uns 18 anos eu estava assistindo um show no centro da cidade a noite com um grande amigo meu. Estava anoitecendo e era inverno, com o crepúsculo vinha um vento gelado. Eu não lembro bem se era a música, mas havia algo de morbido no ar... e naquele momento por um instante meus pensamentos ficaram mais vagos e por alguma razão a noção de que eu não teria como escapar de minha própria morte me atingiu em cheio... a sensação de desespero e sufoco foi horrível, um terror completo. Tudo a minha volta havia perdido o sentido e a importância.
A partir daquele momento, passei dias e noites tentando encontrar um meio de evitar minha própria morte.

Obviamente sem sucesso em minha empreitada, acabei algumas semanas depois me perdendo em outros pensamentos adolescentes, e como a maioria das pessoas ditas "normais" fui me esquivando deste dia e deixando de pensar na minha própria morte continuamente já exausta pelos dias angustiados e as noites mal dormidas decorrentes dos meus pensamentos nefastos.

Porém outras crises mais intensas de angústia viriam me atormentar não muito tempo depois.
E essas crises eram tão intensas que além de me deixarem acordada, atrapalhavam também o sono de minha mãe também (afinal para quem mais pode-se pedir socorro aos 17 anos?) ... Mas minha mãe, por sua vez ao invés de me ajudar de verdade, queixou-se a minha avó, que por sua vez parecia não ter nenhum interesse real em me ajudar a superar minhas "frescuras e maluquices" e prescreveu-me no auge de toda sua sabedoria psiquiátrica 1 semana de lexotan 3mg em um movimento muito sagaz na tentativa de me manter "mansinha e bem domesticada".

Que bem me fez minha querida avó! Sensação deliciosa que tal comprimidinho rosa me dava... pela primeira vez em 5 ou 6 anos (tive minhas primeiras crises de angustia aos 11 anos) solenemente ignoradas pela minha mãe, avó, tia, e qualquer outra pessoa da família.

Enfim, como qualquer bom manipulador faria com seus peões, fui medicada, primeiro por mamãe e vovó e depois, tanto por costume de sempre ter ocupado aquela posição, como por desespero de voltar a viver a angústia "em seco" continuei o que minha avó começou por conta própria... aos 18 anos eu era completamente dependente do comprimidinho (que já não era mais o rosa, mas sim o verde) para me sentir bem, e viver outras sensações para além da angústia. Se minha mãe ou minha avó sabiam, cagavam solenemente, e/ou deviam achar melhor assim.

Mas minha família não é ruim de todo é claro, (nenhuma acaba sendo não é?) e acabava por me fornecer outros meios de lidar com a angústia que não o tal comprimidinho mágico.
Por exemplo, mamãe e vovó sempre apresentaram para mim uma série de valores familiares muito "decentes e apropriados a moças de boa família" como a honra, a verdade, e a força de vontade.

Mas eu não estou sendo justa aqui, além da angústia e dos tais "nobres" valores, eu também sentia medo, aliás porque medo e angústia andam sempre lado a lado é claro, fazem um casal perfeito. Com 19 anos eu fui ficando cagada de medo de morrer cedo e de me tornar "a loca do lex" aos 30 anos acabei evocando o "valor" da força de vontade e a santa internet, e aos poucos fui diminuindo minhas doses de lexotan por conta própria até chegar a 1/4 do comprimido rosa por dia até que aos 20 anos fiz uma longa pausa no uso contínuo do glorioso comprimidinho.

Digo pausa porque após alguns anos eu fui aprendendo que qualquer pessoa (especialmente com uma família louca como a minha) precisa de uma droguinha lícita ou ilícita para encarar esse mundo que nem sempre é fácil ou justo. (vejam bem eu me considero uma pessoa de sorte, e imagino como é a barra para quem não acha isso de si mesmo)

Como eu falei anteriormente acima, além de angústia eu sinto medo... tenho medo demais de algumas drogas tais como: religiões totalizantes, adoração de santos vivos, terapias que não levem em conta a inteligência humana, pó, crack, birita, além é claro dos nefastos efeitos causados por essas coisas, portanto fico com minha meiotinha de comprimidinho rosa de vez enquando, quando a barra pesa, além de dar valor para pequenas coisas como olhar o dia amanhecendo na praia, sentir o calor do sol no rosto, dormir juntinho da minha namorada e olhar o rabinho da Fifa balançando frenético toda vez que eu chego em casa.

Além disso, com o tempo eu também descobri que chega uma hora que só comprimido não resolvia mais porra nenhuma.

Depois de anos vivendo sob o crivo de uma família que não tinha nenhum interesse em me auxiliar no sentido de me libertar de minha angústia e permitir que eu vivesse minha própria vida da maneira que eu bem entendesse. Eu finalmente percebi que eu só me "libertaria" procurando com meus recursos e meios a maneira de me livrar (pelo menos o suficiente para tentar levar uma vida mais traquila com menos angústia, violência e sofrimento) a maneira de sair de uma teia entruncada que minha avó havia imposto para praticamente todos os seus familiares mais próximos, até para ela mesma...

É claro que isso se mostraria muito mais complicado do que eu imaginava, mas não impossível!

sábado, 6 de agosto de 2011

Crescei-vos e multiplicai-vos

Entre os quinze e os trinta e nove anos minha avó teve seis filhos. Três homens e três mulheres. Essa divisão exata entre os sexos de meus tios sempre me impressionou. Além disso, eu também ficava admirada com a quantidade enorme de pessoas que a minha avó trouxe ao mundo, além de meio assustada com o orgulho que ela sempre ostentou em ter feito "seis partos naturais" tão jovem. Com quinze anos eu era uma adolescente retardada que passava as tardes assistindo enlatados americanos dublados na tv, bebendo cerveja e comendo nuggets na casa de minha melhor amiga. Para mim era (e ainda é) simplesmente surreal pensar em ter um filho com aquela idade.

Nem todos esses filhos ainda estão vivos (aparentemente ter filhos em pencas e ver vários sucumbirem com uma certa naturalidade era um fato bizarro mas muito comum até algumas décadas atrás). Matemática... dizia minha mãe brincando. "se nascem mais, morrem mais".
É claro que existem outros fatores envolvidos, ligados as evoluções da medicina no que diz respeito a procriação humana e os cuidados pré-natais, mas não vou me ater a isso aqui.

Para mim, mais bizarro do que ter uma "ninhada" de filhos humanos e perder parte dela durante o decorrer da vida com certo "desapego" é o fato de que no caso específico da minha avó, aparentemente os filhos "varões" encontraram muitas dificuldades no quesito "se manterem vivos".
Dois deles não foram muito felizes nesta "cruzada". O primeiro deles, não sobreviveu nem as primeiras vinte e quatro horas após o parto "um erro da parteira que me deu uma injeção que não deveria" dizia minha avó. O que nasceu em seguida a este, também não teve muita sorte... acabou assassinado com um tiro no coração com aproximadamente uns trinta anos de idade creio eu. Portanto homem e filho da minha avó vivo, só o meu tio "caçula".

Mais interessante e estranho ainda é o fato de que não foram só esses dois filhos homens que não sobreviveram a minha avó. Meu avô biológico, pai da minha mãe, de minha tia mais velha, dos meus dois tios defuntos e desse meu tio que ainda está vivo, também sucumbiu. Problemas ligados ao alcoolismo acabaram por corroer seu fígado deixando-o doente por alguns anos, até finalmente matá-lo ainda bem jovem, aos 42 anos.

Porém aparentemente nem todos os homens sucumbem a minha querida avó que acabou se casando de novo, aos 32 anos com meu "atual" avô que hoje tem quase noventa anos. (eu não cheguei a conhecer meu avô biológico, que morreu 16 anos antes do meu nascimento).
Essa união gerou (após 5 abortos espontâneos), minha tia mais nova, finalizando longa carreira de"parideira" de minha avó.

De todos esses filhos "sobreviventes", pelo menos até hoje, somente minha mãe e meu tio "colocaram os genes para frente"; minha mãe teve apenas uma filha: eu. Já meu tio celebrando o orgulho de ser o "único macho sobrevivente" resolveu levar muito a sério a ordem bíblica “Crescei-vos e multiplicai-vos” tendo quatro filhos, três meninas e um menino.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

a bola da vez

Tenho uma família bem doida e que as vezes me dá muito medo. Não dá para explicar tudo aqui, isso é só a primeira parte...

Avós com 88 e 81 anos respectivamente, eu os amo muito... Ele meu avô, tem doença de parkinson, ela minha avó Alzheimer, em estágio inicial para intermediário. Eu fui criada por eles, morei na casa deles até os sete anos de idade. Durante a adolescencia ia lá todos os dias até meus 16-17 anos. Os visito toda semana, trato com muita paciência e carinho, compro remédios, acompanho a médicos explico e re-explico as mesmas coisas se necessário. Tirando pela minha mãe e minha tia mais velha que mora com os dois (isso é um problema do qual falarei mais para frente), os visito mais do que todos os outros filhos deles. (tios e tias)

Devo muito a esses dois. Por diversas razões. Em certa ocasião ha uns 7 anos atrás, eu estava muito perdida e sem rumo, tinha acabado um relacionamento de quatro anos, estava sem emprego fixo meio vagando no nada, e minha avó (ainda lúcida) me chamou em um canto e disse: vai estudar, faz mestrado, se o problema é dinheiro seu avô e eu pagamos. Agarrei a proposta com todas as minhas forças e por sorte fui muito feliz neste rumo. Infelizmente hoje se eu disser a minha avó o bem que essa proposta me fez ela vai se esquecer em minutos.

De cara sofri muito com o dignóstico de minha avó. Senti e ainda sinto falta da força que ela me dava e de poder contar com ela como a amiga e confidente que ela foi durante tantos anos. Algum tempo depois do diagnóstico, as conversas entre nós foram se reduzindo a menos palavras, as mesmas perguntas por parte dela, e entre nós as posições foram mudando e eu virei meio que uma "cuidadora" não no sentido do acompanhante geriátrico, mas de alguém que fica de olho nas coisas tomando conta de assuntos referentes a vida prática... coisas de banco, comprar remédio, anotar recomendações médicas, pedir para tomar mais um golinho da vitamina, enfim, coisas que muita gente acharia chatinhas mas que faço numa boa, sem nenhum aborrecimento.

Por outro lado a doença de minha avó abriu um laço de ternura entre eu e meu avô, que provavelmente por causa dela, era muito fechado. É inegável que para mim é um alívio que ele me ainda me compreenda, me responda com atenção, carinho e retenha os momentos que passamos juntos, além da força e da proteção que ele me dá.

A velhice é uma coisa muito estranha e assustadora. Fico sempre com a impressão de que a tratamos como se ela nunca pudesse nos atingir de fato, fica sempre meio assim... ah quando acontecer a gente se vira. Mas uma coisa sobre a tal "melhor idade" (melhor para quem ???) é certa, e isso eu aprendi observando o caminho dos meus avós.

Idoso saudável e sorridente que aparece em comercial de margarina, anuncio de dentatura e pacote de fraldinha geriátrica é uma coisa. Idoso doente é outra. Cardiopatia, pressão alta, artite ou artrose são ruins, agora quando falamos de doença degenerativa do SNC o buraco é bem mais embaixo.

Lidar com caquinhos de cerébro que se organizam e se re-organizam a cada dia, é foda. E por mais que eu seja fascinada por essas transformações, quando acontecem com os amados vovô e vovó a coisa é pesada de verdade e se bobear acaba contagiando quem está perto (tenho um exemplinho básico na minha família).

Perdas cognitivas, são coisas bizarras, e assustadoras, (as vezes são engraçadas de tão rídiculas também confesso) as motoras são desestimulantes principalmente para quem está dentro do corpinho que mal se mexe, mais ainda raciocina com clareza. Para meu avô por exemplo a certeza de que a falta de mobilidade só piora e não tem volta é um fato complicadíssimo de se lidar.

Ha alguns meses tive que contratar um serviço de enfermagem domiciliar para meu avô, e na vasta procura que fiz me deparei com um desses artigos da internet, no qual li que a maior parte desses contratos não passa de cinco anos. Motivo? A expectativa de vida de um idoso que precisa desse tipo de cuidado não é muito maior do que isso...

Esse tipo de coisa me machuca. Tanto quanto me machucou a fala do médico neurologista do hospital da marinha que em certa ocasião (em que minha avó havia sido internada em estado de completa demência) me olhou admirado quando eu perguntei qual seria o possível diagnóstico e respondeu falando em meio a uma risada soturna "ha, minha filinha idade não é?".

Mas de fato, ha uma coisa muito mais muito interessante em assistir o envelhecimento dos seus entes queridos: a troca de posições.

Ela é perversa, e pode te dar um certo medinho talvez, porque afinal você é a "bola da vez" e a responsabilidade meu amigo agora é toda sua. Dá medo também porque lá no fundo, você sabe que a posição é transitória, afinal os meus avós (de quem tanto falei acima) já foram a "bola da vez"e forçosamente tiveram que abdicar dessa posição. Assim como meus pais e meus tios e tias (que atualmente ainda estão dividindo essa posição de certa maneira comigo). Mas na minha opinião triste mesmo é saber que tem gente que prefere nunca ser a bola da vez.
Mas eu, pelo menos nesse instante sinto um prazer inenarrável de estar nessa posição e de ter a sensação deliciosa de poder mexer com as peças do tabuleiro mais ou menos da maneira que eu quiser.

museu de grandes novidades

Faz tempo que eu penso em fazer uma espécie de blog/diário.
Talvez ninguém esteja muito interessado no que eu tenho a dizer, mas pelo menos para mim serve como uma distração...

Achei que hoje poderia ser um bom dia para começar, já que é o "day-after" do "ataque histérico" que meu analista resolveu ter comigo em plena sessão.
Esse fato, me fez ter a convicção de que eu jamais voltaria em seu consultório, além de me levar a questionar todo o processo da psicanálise como um todo.

Minha história com esse profissional é cheia de acertos e sucessos. Porém ele mais do que qualquer pessoa, sabe que eu estou passando por um momento muito difícil não só na própria análise, como em minha vida pessoal também.
Sou muito grata a ele por uma série de mudanças e vitórias. Mas infelizmente ontem após uma frase incompleta no divã fui rebatida com um "não estou com saco para você hoje, volte na quarta feira", após tanta delicadeza, a criatura se dirigiu a porta e a abriu me direcionando para fora de sua sala.
Agora pensemos juntos, que tipo de analista não tem saco para ouvir seus pacientes. Ainda mais quando questionado sobre coisas que ele havia dito na seção anterior, é o todo poderoso, não pode ser indagado, quanta violência.
Enfim... Se eu digo isso a um cliente (sou designer) é perder o cliente na certa.
É claro que a história não é tão simples assim, isso é o resumo de uma querela mais longa. Mas provavelmente as palavras do analista são apenas o cume de um iceberg que devia estar prestes a estourar e eu não estava percebendo.