Sinto muito medo de voar.
Muito mesmo, do tipo que não aproveita os primeiros minutos da viagem. Tem gente que sente tesão na decolagem e até filma. Mas para mim, a coisa só melhora quando escuto aquele "blim blom... o tempo de viagem até Buenos Aires será de duas horas e cinquenta minutos..." Eu só relaxo quando o alarme sonoro toca.
Esse provavelmente foi mais um recurso anti-enlouquecimento que eu criei para não morrer do coração quando viajo de avião. E de fato vem possibilitando que eu entre em aviões já ha uns dois anos. Na minha cabeça a pior parte é a decolagem. De fato nunca gostei da sensação, mesmo quando eu era criança e dormia tranquila nas poltronas do Electra da Varig na ponte aérea RJ-SP.
O medo de voar foi uma das razões pela qual procurei a análise. Não era a única; pior do que ele era a angústia que eu sentia dias antes de voar, seja porque estava longe de casa, ou porque tinha certeza absoluta de que iria morrer.
Em todos esses anos a maior parte das pessoas que conheci se confessou medrosa com relação aos aviões. Tenho amigos comissários de bordo que disseram ter colegas de profissão que só viajam "cheios de remédios nas idéias".
Porém por outro lado, sou fascinada pelas aeronaves. Conheço os modelos, os tamanhos, tenho apreço pela Boeing e medo da Airbus. (mesmo antes da queda do AF).
Eu conheci três pessoas que perderam parentes e amigos em acidentes aéreos. Uma conhecida perdeu o pai em um acidente da Austral linhas aéreas em Nuevo Berlin no Urugay em 1997. As outras duas pessoas perderam amigos e familiares no acidente da Air France em 2009 e além disso, eu mesma fiquei sabendo que duas pessoas que moravam no meu prédio morreram neste acidente também.
Curiosamente minha cabeça começa a funcionar loucamente quando acontece algo assim. No caso dos vizinhos, fiquei pensando quem foi o taxista que os levou daqui do prédio ao aeroporto e como eu mesma já fiz esse trajeto tantas vezes.
Na época do acidente da Air France eu já estava fazendo análise. E mesmo assim, eu quis saber tudo o que se passava na mídia. Lia tudo. Era como se a informação pudesse me salvar de um possível acidente. Fico siderada no assunto. Alguns dizem que isso só serve para me impressionar, mas não. A morte sempre me instigou tanto, que eu procuro saber tudo o que dá sobre ela. Mas não é qualquer morte... quedas de avião e doenças raras ou complicadas como o cancer é que são irresistíveis.
De fato, minha curiosidade me levou a ficar bastante desconfiada da pouca ou nenhuma comunicação entre os orgãos internacionais de aviação/companhias aéreas.
Quando eu começei a escrever este texto, fui pesquisar no google, sobre as causas do acidente da Austral, e que surpresa eu tive, quando vi que foi o congelamento das sondas pitot. O mesmo que levou a uma sequencia de erros entre os pilotos da Air France, devido aos dados incorretos ligados a velocidade do avião.
Será que a queda do antigo DC9 não teria inspirado mudanças no design ou estruturais nas sondas pitot se tivesse ocorrido em um país como os Estados Unidos ou em algum lugar da Europa?
O assunto dos acidentes aéreos na verdade surgiu numa pequena confraternização após o curso de frances em uma agradável pizzaria na Barra da Tijuca, onde um de meus colegas contou a nós sobre sua irmã, morta no AF447. Mas além da morte em si, um detalhe me impressionou. Como o colega é policial federal aduaneiro, ele mesmo fez o embarque da irmã no voo.
Um milhão de coisas atiçaram minha cabecinha é claro. A sensação de ter sido a última pessoa a ter visto a irmã e tê-la embarcado, é horrivel. O fato de conhecer alguém que tinha um parente próximo no voo, torna as coisas mais reais, mais arrepiantes. E por isso matutei sobre o assunto por praticamente 24 horas e estou escrevendo o presente desabafo.
A mesa, todos falamos sobre o medo de voar. Inclusive eu. E cada um encarava a coisa a sua maneira. O rapaz que perdeu a irmã diz que seu medo piorou após o acidente, mas que pelo menos o pesar sobre a morte da irmã melhorou com a análise. A professora de Francês se aventurou por diversos tipos de terapia e teve até crises de choro graças a turbulências mais turbulentas. Mas uma moça que tem um ótimo senso de humor disse uma coisa que me tranquilizou de certa forma: "avião é que nem a máquina do tempo".
Eu até acho que ela encara a própria frase de maneira mais pessimista do que eu estou encarando. Avião é uma máquina do tempo, que pode me levar a tempos muito mais felizes e me trazer de volta para casa. É uma espécie de caixa, cuja sensação quando as coisas vão tranquilas são de um troço que mal sai do lugar. Era meio assim que eu me sentia voando quando era criança.
Desde que minha análise acabou eu nunca mais vooei. E daqui a mais ou menos um mês irei pela primeira vez a Europa. É na verdade o primeiro destino que vou, no qual só será possivel voltar tomando outro avião.
Ir a Europa, é um sonho antigo, tanto quanto estudar medicina eu acho, e que me foi amputado durante muito tempo graças ao "mecanismo da angústia" que me paralisou durante muito tempo. Na verdade desde que começei a análise dei vários passos no sentido desta viagem.
Em 2007 fui a primeira vez para a Argentina, e essa viagem fui fundamental para me direcionar ao tratamento psicanalítico... tive uma crise de angustia e medo tão horrível nesta viagem que decidi dar um basta naquilo. Essa viagem (Argentina 2007) me fez desistir de vários planos que incluiam distâncias e aviões. O que para mim parecia mais como uma amputação ou uma violação.
Eu só fui voar novamente em 2010, após 3 anos e meio de análise que eu tive coragem de entrar em um avião novamente após o fiasco argentino. Foi só aí que me senti segura o suficiente para fazer uma pontezinha aérea só de ida.
No começo de 2011 após algumas viagenzinhas pelo Brasil, encarei Argentina mais uma vez, e entre mortos e feridos, saí vencedora e decidida a encarar uma viagem transoceanica num belíssimo boeing 777 inglês;
Claro que no meio do caminho eu não contava com um xiliquete de meu analista, mas confesso que por nem um segundo o problema com meu analista me fez questionar a viabilidade da viagem a europa.
Angustia além mar, sim talvez eu sinta, mas talvez não. Claro que minha cabecinha é meio doidinha e eu já achei que fosse morrer nessa viagem. As vezes ela me dá medo, mas não desespero, o que é fascinante. Pois faz tempo que eu não se sinto tão livre para explorar uma terra estrangeira como agora.
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