Hoje eu estava passeando com a Fiona e enquanto ela corria, o vento agitava os pelinhos da cauda dela, ao mesmo tempo eu pensava : "caramba essa cachorrinha é livre, igualzinho a mim".
A Fiona parece apreciar como ninguém um passeio. Um solzinho na cara, um ventinho gostoso, uma volta de carro em um dia bonito, um mergulho gostoso na praia.
Parece que ela me entende como ninguém e vê o valor que essas coisas parecem ter. Ela tem seis anos e meio, o que são uns 45 anos humanos, mas a fiona não é nenhuma coroa não, ela está super em forma magrinha, barriguinha sarada. Alguns primeiros pelos grisalhos começam a aparecer, mas eu também já tenho meus bons cabelos brancos e sou mais jovem do que ela em anos humanos.
Toda vez que eu levo a Fiona na rua, eu separo uma parte do passeio para o "farejo". Eu deixo a coleira mais solta numa rua sem saída com menos movimento de carros e vou deixando ela seguir alguns rastros. É o único momento do passeio que eu vou para onde ela manda, muitas vezes ela fica ziguezagueando e tentando ir muito longe e sendo contida por mim, mas outras ela se fixa em um ponto específico da vegetação que nasce entre os paralelepipedos e fica mexendo o focinho para um lado e para o outro com um movimento muito, mais muito sutil, que só os grandes observadores conseguem notar.
A felicidade quando estamos na rua fica estampada nos olhos da Fiona, e o rabo abana quase o tempo todo, meio que como um sinal de agradecimento por proporcionar mais uma deliciosa visita as possíveis surpresas que moram do lado de fora da porta.
Eu sempre me perguntei porque algumas pessoas preferem passar as suas vidas trancadas, já que só temos uma vida e ela passa muito, mas muito rápido.
Quando eu comprei meu último carro fui levá-lo para meus avós e minha tia mais velha o conhecerem. Isso é meio que um ritual nosso. Minha avó sempre desceu para entrar e olhar o carro. Mas agora conforme sua doença vai avançando as coisas vão piorando e ela ficou junto com o meu avô e a minha tia olhando o carro lá de cima do quarto andar do prédio. Não vendo nada senão o teto e o capô do carro. E não existe uma impossibilidade física que separe minha avó do carro. Somente a maluquice geral da minha família multiplicada por mil (já que dizem que as coisas pioram com a idade).
Para uma pessoa como eu essa cena é bizarra. Quando eu comparo as pessoas da minha família com as pessoas de outras famílias (nessa questão da reclusão) eu tenho verdadeiros arrepios. A avó de uma grande amiga minha é mais velha que minha avó e viaja de ônibus sozinha para outra cidade. Todo mundo sai, mais ou menos, mas sai, viaja vai ao cinema. Ao contrário da minha avó ficou tão presa e ancorada dentro daquele apartamento que ficou lelé com menos de 80 anos. O meu avô que a acompanhou na empreitada parece ser provido de genes de melhor cepa, e aos 89 anos não está demente, mas por sua vez arrumou uma doença degenerativa e uma artite tão feia que ficou prisioneiro de seu corpo.
As vezes eu acho que a posição dele é bem pior; certa vez, ele assumiu para mim que pensamentos nefastos tomam conta de sua cabeça vez ou outra quando ele se deita para dormir. Na posição do meu avô, deve ser impossível não pensar que sua ampulheta está ficando sem areia, especialmente se você ainda tem massa cinzenta intacta. Tentei me colocar no lugar do meu avô por uns 30 ou 40 minutos e rapidamente precisei ocupar minha cabeça com outra coisa.
Talvez a solução para esse problema seja mesmo se ocupar, viver tanto quanto você possa e de fato mesmo aos 89 anos tentar pensar em outra coisa... o que deve ser mais fácil se você viveu muito e intensamente o tanto quanto pode. Mas deve ser foda de ruim se você optou por deixar a vida de lado e ficar trancado num apartamento com a sua mulher e os filhos e netos dela por 30 anos como meus avô fez.
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