Desde que meu analista resolveu dar ataque de bichisse e piti, eu resolvi usar esse espaço para desabafar, e hoje a pouco mais de 24 horas de minha primeira viagem de avião transcontinental eu estou quase surtando.
Fui durmir as 2 da manhã, acordei várias vezes nervosa para fazer xixi, fui acordada pela minha tia do inferno as 9:23 da manhã dizendo que iriam cancelar a aposentadoria do meu avô e que eu deveria mandar um email para a marinha providenciando seu recadastramento domiciliar para fins de manutenção de pensão.
Como minha família é louca e escrota eu não consigo deixar de pensar que ela fez isso com um único objetivo: me angustiar o máximo possível antes da minha viagem.
Sempre penso em morte antes de andar de avião. Já fiz todo tipo de ritual e simpatia bizarros para me "manter viva" nesta viagem e já me desesperei pensando no que será daqueles que dependem de mim, mesmo que emocionalmente caso aconteça alguma coisa. Dos quatro voos que pegarei Rio-Londres-Atenas-Roma e Londres-Rio, já olhei até o site de manutenção das companhias aéreas, British Airways e Aegean Airlines para ver se "confio" no taco delas.
Inclusive esse post faz parte de alguma mandinga bizarra de uma pessoa que duvida que possa ter previsto a própria morte em um post de um blog "secreto".
Porém, depois de observar meus avós ontem a tarde não consegui deixar de pensar em morte, não a minha... mas a deles. Minha avó apresenta piora da doença de alzheimer, é uma coisa recente mas marcante. Anda esquecendo da existência da empregada que frequenta a casa todos os dias. Segundo a minha tia do inferno (que é bem mentirosa, portanto não dá para saber se isso é verdade ou mentira) outro dia minha avó a procurou em desespero perguntando quem eram seus filhos.
Minha mãe que ficou mais perto de minha avó ontem disse que ela se queixou de uma angústia que não tinha razão de ser (curiosamente o mesmo sentimento que eu senti durante muito tempo quando viajava e ficava longe de casa). Maluquice de cunho familiar estendido? Talvez.
Me assustou... sim e muito. Tanto a maluquice angustiante de vovó quanto a eminente morte dos velhos, quanto tudo isso junto muito perto da minha viagem.
Desde pouco antes do "rompimento" com meu analista eu venho fazendo exercícios de respiração do yoga antes de dormir. É um exercício de controle da mente também, pois costumo fazer quando estou sem sono e quando estou pilhada antes de dormir, e ontem foi complicado parar de pensar na morte dos meus avós. Não só morte, morte doença, degradação e tudo isso que vem junto.
Não ficarei surpresa se no decorrer da minha viagem as coisas piorarem, ou até melhorarem. Parece provocação, e é uma violação no meu direito de ir e vir. Ontem mesmo tive que escutar pela milésima vez na minha vida minha tia do inferno dizendo que ela só dorme bem na cama dela, que não dorme fora de casa e que eu tomasse cuidado para não ser confundida com traficante de medicamentos e drogas nas aduanas européias.
Devo confessar que pela primeira vez na vida ela me disse coisas boas com relação a uma viagem que eu faço. Mas eu sou desconfiada. Ela me abraçou forte e de maneira sincera quando eu me despedi. Até o meu avô recebeu com espanto e susto a notícia de que eu viajaria para a europa em dois dias e esclamou 'um mês!!' de maneira meio revoltada, quando eu disse o tempo que ficaria fora.
Essas barreiras simbólicas não ajudam em nada e tornam o processo ainda mais doloroso do que deveria ser... no meu lugar quantas pessoas não estariam eufóricas com esta viagem? E eu aqui apavorada, procurando problema.
De fato eu já oscilei entre a alegria extrema e o total desespero de causa com relação a esta viagem, mas como bom carneiro que sou, vou me mover lentamente até o avião e ficar esperando o melhor, fazendo uma força descomunal para suportar os momentos de angustia e pavor, os quais eu rezo, que sejam poucos.