sexta-feira, 18 de novembro de 2011

it´s a long way

A rotina de cuidar dos meus avós é extenuante. Ainda mais quando o mecanismo da escravidão e da angustia parece ter um exército de trabalhadores a seu dispor, que procuram tornar a vida de uma mulher de 32 anos que não deveria ter nenhuma familiaridade com a morte entra em ação quase diariamente.

A minha avó e o meu avô juntos, nos seus dois casamentos tiveram nove filhos. Dois filhos da minha avó morreram, portanto não entram nessa conta. Mas dos sete vivos, aparentemente apenas minha tia do inferno e minha mãe (com muita dificuldade) que cuidam de alguma maneira dos dois.

É claro que nessa matemática da maluquice familiar acaba sobrando muito para mim.
E como neta e não filha, acredito que não deveria de forma alguma estar ocupando esse papel. Meu pai já morreu, e minha mãe ainda tá jovem demais para precisar de fraldas e enfermeiros.
Portanto, sozinha, tenho que lidar não só com a idade avançada e com as doenças dos dois, mas também com toda a neurose acumulada pela família durante todos esses anos.

Minha tia do inferno é completamente louca, e é a última pessoa no mundo que eu deixaria cuidando da minha mãe e do meu pai... justamente por isso me admira muito que minha mãe e meus tios e tias o façam. É o processo de vingança mais injusto que eu já vivenciei. Pessoalmente acho que se você tem questões com os seus pais, procure uma boa análise, pai de santo, padre, pastor, rezadeira enfim qualquer coisa... mas resolva sua pendenga com seu velho ou sua velha enquanto ambos estão fortes e lúcidos, ou então cale-se, ou vá resolver você sozinho.

De fato meus avós estão pagando um preço alto de todos os lados. Se por um lado, são maltratados emocionalmente e moralmente pela minha tia que não tem mais a menor condição de exercer o papel que ela exerce atualmente, pois está esgotada física e mentalmente; além de ser tão arrogante que é incapaz de admitir sua incapacidade. Por outro, sofrem com a ausência dos filhos que em sua maioria nem uma ligação telefonica são capazes de fazer. Quem diria então tentar minimamente mover as peças do tabuleiro para tirar a torre do lugar dela e tomar algum tipo de providência com relação ao cuidado de seus pais.

Para mim isso é vingança. Hoje levei meu avô ao médico ( feito que só consegui com muito esforço, pois minha tia simplesmente vetava seu cuidado médico, e quando o fazia era através do contato esporádico com um clínico geral que já está completamente senil e não via meu avô pessoalmente a anos). Levar meu avô ao médico demanda uma operação complexa... táxi especial, cadeira de rodas, dois enfermeiros, um dia inteiro tomado praticamente. Sou jovem e bem disposta, mas isso me cansa. Não é a doença, a idade, é o desgaste... não é simplesmente levar meu avô. Para ir e vir eu dependo da boa vontade da minha tia para quem tudo é motivo de gritos, reclamações e stress.

Antes da denuncia dos vizinhos a polícia (de maus tratos a idosos) ela gritava com os dois (avô e avó) agora ela grita sozinha e comigo. Minha tia é o tipo de pessoa difícil cuja arrogância não permite atender a algumas das sugestões que eu dou para que ela tenha um mínimo de bem estar. Não adianta falar, nada funciona, nada é bom, nada tem solução... a solução dela é me cansar, me azucrinar, encher o meu saco. Coisa que não tem serventia alguma, só me afasta cada vez mais da situação e cria uma intolerância cada vez maior da minha parte.

Voltando da médica do meu avô, mostrei a minha tia todos os procedimentos que a endocrinologista pediu com relação ao controle do diabetes do meu avô. Primeiro ela reclamou que foram feitos ajustes nas doses de insulina. Depois ela se recusou a permitir que meu avô saísse de casa para fazer um exame de sangue no laboratório que foi solicitado.

Nesse momento eu me cansei e falei quer saber... ok, então não faz o exame... minha tia é tão arrogante que se recusa a perceber o tamanho da ajuda que eu dou a ela. Ela age como se o normal fosse meus avós ficarem trancados em casa sem banho, sem ir ao médico, num verdeiro inferno. Meu avô ficou dois anos sem sair de casa, talvez até mais na verdade. Isso é insalubre demais.

Fico impressionada como a maluquice da minha avó sobre sair de casa e se afastar contaminou a minha tia. Hoje minha mãe me disse que em certa ocasião minha tia ficou dois anos sem sair de casa.

Como criatura livre que sempre fui, desde pequena adorava sair a rua e sentir a luz do sol e o ventinho no rosto igual a um cão com o focinho para fora da janela do carro. Todos os sábados de manhã minha mãe me levava para caminhar na rua. "para onde você quer ir...?" ela me perguntava. Eu sempre apontava mais longe a frente. Até hoje quero ir mais longe, vivemos em um mundo tão grande para ser explorado e apenas uma vida um tempo limitado para fazê-lo. Por que então ficar trancado em casa vendo novela? Uma viagem para o exterior é uma das coisas mais ricas que um ser humano pode experimentar. Para ver as coisas de maneira mais clara é preciso olha-la de outro ângulo e para fazer isso é necessário se afastar.

Mas pelo visto isso não era permitido no reino da loucura de vovi, e titia do inferno, boa soldada que é tenta loucamente levar isso até o fim. Hoje quando voltei da consulta ela repetiu umas vinte vezes para mim como é daninho para ela (veja bem, ela aponta o problema ela!) quando eu levo meu avô ao médico.

E minha tia não reclama uma vez. Ela repete as coisas incansavelmente. É uma das mais exímias habilidades dela. Ela parece prender as pessoas numa espiral de coisas ruins quando começa a reclamar. É uma coisa louca de se ver, e muito difícil de se libertar.

Levar a situação na casa dos meus avós para um mínimo aceitável custou muito para mim. Física e psicologicamente. Foi uma long way que tive que percorrer completamente sozinha. Mas talvez tenha sido a única maneira de viver de maneira minimamente mais tranquila comigo mesma.