sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Liga - Desliga

Durante muito, mas muito tempo a minha avó se dedicou a fazer de mim uma ovelha mansa.

Toda vez que alguém me aborrecia ela dizia: não liga não minha filha, é assim mesmo.

É assim é o caralho! Quando alguma coisa saía diferente do que a minha avó queria o diabo subia do inferno e vinha cuspir fogo em quem a desafiava.

Infelizmente devido a doutrina da minha queria avó eu tive, e de certa forma ainda tenho muita dificuldade em dizer não. Antes eu era mais passiva, ficava atrapalhada e depois todo esse sentimento guardado virava um misto de fúria com angústia.

Um exemplo bom disso, é a minha tia do inferno (até que ela andava calminha de uns tempos para cá) mas essa semana ela resolveu tirar a pele de cordeiro e azucrinar a vida alheia (minha e da minha mãe) de novo.

Ela tinha um hábito péssimo que de certa forma ainda perdura, quando eu era adolescente e fazia algo que ela não gostava, ela me arrastava para o quarto dela e me passava um sermão. Mas não era simplesmente um sermãozinho de não faça mais isso. Era um pacote de humilhação completo, daqueles que ninguém se esquece. Era uma espécie de tortura, e eu simplesmente não conseguia sair dali, ficava ouvindo petrificada. Nem ódio eu conseguia sentir, minha tia me arrasava e fez isso repetidas vezes durante a minha adolescencia muitas vezes por motivos fúteis e vis, como o dia que eu marquei um encontro com ela na casa dela e me esqueci de ir, ou o dia que fiz uma festa escondida na minha casa, e minha mãe acabou estourando e acabando com a festa.

A sessão de tortura durava mais de uma hora. Todos na casa sabiam do que se tratava, mas ninguém ia lá me ajudar. Todos eram coniventes. Minha mãe estava convenientemente trabalhando nessas ocasiões. Minha avó concordava com tudo. Eu mais uma vez não podia contar com ninguém.

As vezes minha avó se juntava a minha tia, como no dia que eu fui pedir toda animada para fazer um intercâmbio no exterior, e minha avó me disse que isso nunca iria acontecer porque na Europa ou nos Estados Unidos eu não passaria de uma judiazinha bastarda latino americana.

As vezes minha mãe se juntava as duas e me fazia sentir mais sozinha ainda. Várias vezes eu me pergunto, por que minha mãe quis tanto ter um filho? Só para satisfazer a fome de tortura e domínio da minha avó e da minha tia?

Toda essa tortura ao meu ver foi se acumulando dentro de mim, formando grandes depósitos de angústia e isso provavelmente ocorreu desde os meus 4 meses de idade (foi quando minha mãe me deixou na casa da minha avó, e foi para São Paulo viver a vida dela).

Hoje em 2011 minha tia do inferno se encontra mais maluca do que nunca, e vive com meus avós idosos e doentes. Sabendo que eu sou uma criatura que costuma escutar e nunca diz não, ela tem por hábito me ligar, e me azucrinar com seus problemas pessoais (ela não quer solução, ela só quer irritar quem está do outro lado da linha). Durante muito tempo meus amigos me perguntavam, porque você não desliga?

Eu simplesmente não conseguia. Um dia no começo de 2010 minha tia me irritou tanto que eu finalmente gritei com ela e desliguei o telefone. Infelizmente minha tia é uma especie de locomotiva que só para no dia que morrer, portanto depois de algum tempo parada ela volta a repetir as mesmas mazelas e as mesmas apurrinhações.

Hoje ela me ligou e começou a desfilar a mesma ladainha de sempre. Aí eu resolvi que toda vez que ela me irritasse eu iria bater o telefone na cara dela. E foi o que fiz! Claro que ela insistia e ligava de novo e de novo, afinal ela é uma locomotiva. Mas depois da quinta vez que desliguei na cara dela, acho que finalmente consegui subir uma parede alta o suficiente para conter a locomotiva. Pelo menos no dia de hoje!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

angoisse

A angustia parece ser uma companheira antiga.

Tenho 32 anos e a primeira vez que tive uma crise eu tinha apenas 11 anos. Na verdade naquela noite de domingo eu nem imaginava que seria a primeira de muitas e muitas crises.

Durante algum tempo eu pedi socorro a minha família, mas como eu já mencionei anteriormente ela me ignorou completamente, e dessa forma pioraram muito o problema, o que resultou em anos praticamente inteiros dedicados a angústia.
Era uma espécie de força que tomava todo o meu corpo de assalto. Viver angustiada é muito difícil e cansativo também, aos 18 anos eu torci para que o tempo passasse bem rápido e eu chegasse logo aos 40 ou aos 60 anos para que a morte estivesse mais próxima e eu pudesse me livrar da sensação que a angustia tras.
Nos momentos que de trégua, era fácil encontrar um motivo que voltasse a me deixar angustiada de novo. Álcool, por exemplo. Beber me deixava angustiada, assim como alguns comerciais de TV, notícias de morte fosse no jornal ou na minha família... a idéia de morte de uma maneira geral.

Ontem eu estava assistindo uns vídeos do garoto enxaqueca e senti muita saudade daqueles "anos da angústia" 1996-1997. Digo isso porque quando penso nessa época um inverno muito cinzento é a primeira coisa que me vem a cabeça; mas eu tenho consciência que minha juventude não se tratou só disso; ai resolvi fazer força com o cérebro e procurar me lembrar bem daqueles dias... As vezes eu matava aula com meu amigo Jay, e passávamos o dia circulando pela cidade de ônibus até o anoitecer, isso era divertido. Ou então o dia que as férias de verão começaram e nós alugamos trainspotting e pedimos um pizza para comer enquanto assistíamos o filme.

O jeito que eu me vestia, (uma coisa entre sapata-cluber e punk) as besteiras que eu aprontava com a Mônica, uma amiga do curso de inglês. São muitas as lembranças que me vem a cabeça. Como o dia que Jay me deu um poema de natal dizendo que o mundo era azedo e eu fazia parte do seu antídoto, ou as inúmeras vezes que eu fui com Mônica ao shopping passar horas nos videogames ou as tardes que eu passei na casa de amigos simplesmente ouvindo música e jogando conversa fora, os shows, as festas... bem, aí a coisa pegava, a noite a angústia costumava bater firme e foi aí que aos poucos o lexotan foi entrando na minha vida.

Mas eu sentia muita vergonha de admitir o meu "problema" e meus amigos nem desconfiavam do que se passava comigo.

As vezes eu fazia umas besteiras como o dia que eu fui ao mercado mundo mix com o Jay e misturei lexotan com bebida e achei que fosse morrer de tanta palpitação.

Minha angústia sempre me pegava antes de dormir. Eu tinha medo de dormir e não acordar... as vezes eu dormia e acordava sem ar, com o coração saindo pela boca de tão rápido, e simplesmente o pavor me tomava... tremores, suor, uma sensação que me dominava o corpo, eu não tenho ideia de quantas vezes isso aconteceu. Por muitas vezes eu me levantei e passei noites inteiras em claro fazendo os rituais mais bizarros esperando resolver o problema. Teve uma vez que eu fiz waffles com sorvete, outras eu ligava a TV e assistia até a sessão do descarrego... ou então passava rezando em silêncio para que meu coração se acalmasse assim como a minha mente que não parava.

Ontem eu resolvi tomar uma cervejinha junto com um delicioso acarajé. Algumas horas depois eu estava angustiada. Ao contrário do que ocorria quando eu era mais nova eu procurei ir deitar, fui para cama porque estava com frio e morrendo de sono, apesar de ser apenas 8:30 da noite e este não ser o meu horário habitual do soninho.

De fato depois que eu comecei a fazer análise a minha angustia foi não só diminuindo como mudando de figura. Nunca mais uma angústia enorme sem motivo nenhum aparente me pegou; muito embora a sensação tenha vindo com tudo algumas vezes mesmo depois da análise normalmente estava vinculada a alguma questão mal resolvida e não simplesmente um "touro indomado" que não tem a menor razão para vir me atacar.

Na verdade mesmo depois que eu comecei a análise eu levei muito tempo para compreender que angústia é uma característica humana. Por que? Provavelmente porque eu vivia tão angustiada que era difícil ententer que a angústia acontece as vezes, é normal. Não pode é ser sua companheira do dia a dia como acontecia comigo ha alguns anos atrás, mas como um aviso de que talvez as coisas não estejam saindo como você planejou ou simplesmente porque você descende da família da minha avó e lá (na família da minha avó) o exército da angústia faz de tudo um pouco para complicar o que pode ser fácil "de tabela" tentar empurrar umas dosezinhas do tal sentimento para ver se você impaca mais um pouquinho a sua vida e entra na "ciranda dos malucos".

Voltando ao domingo a noite... eu me deitei e tentei algumas das minhas técnicas anti angústia mais utilizadas: respiração de yoga, me revirar para lá e para cá na cama, tentar pensar em outra coisa, me levantar repetidas vezes e ir ao banheiro... pois bem com o fracasso das opções anteriores eu decidi travar uma batalha com a angústia; eu pensei: eu tenho todo tempo do mundo e dessa vez não levanto dessa cama até vencer.

Voltei a respiração de yoga e me "estabilizei", ou seja a angústia não melhorou nem piorou. Desafiei o sentimento algumas vezes dentro da minha mente, e aos poucos a coisa começou a baixar... não sei porque me virei de lado e experimentei uma sensação entre o dormir e o despertar durante algum tempo, além de alguns minutos de cochilo.

As 9:40 minha namorada me chamou para fazer o jantar. Eu nem havia notado que mais de uma hora havia se passado, me levantei meio sonolenta com muita preguiça e um resquício de angustia, mas fui lá, fiz os sanduiches com um esforço fenomenal (por causa do sono e da preguiça) e acabei me desprendendo dos meus sentimentos angustiantes assistindo a primeira temporada de queer as folk.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Life is just what happens to you while your busy making other plans

Hoje eu estava passeando com a Fiona e enquanto ela corria, o vento agitava os pelinhos da cauda dela, ao mesmo tempo eu pensava : "caramba essa cachorrinha é livre, igualzinho a mim".

A Fiona parece apreciar como ninguém um passeio. Um solzinho na cara, um ventinho gostoso, uma volta de carro em um dia bonito, um mergulho gostoso na praia.

Parece que ela me entende como ninguém e vê o valor que essas coisas parecem ter. Ela tem seis anos e meio, o que são uns 45 anos humanos, mas a fiona não é nenhuma coroa não, ela está super em forma magrinha, barriguinha sarada. Alguns primeiros pelos grisalhos começam a aparecer, mas eu também já tenho meus bons cabelos brancos e sou mais jovem do que ela em anos humanos.

Toda vez que eu levo a Fiona na rua, eu separo uma parte do passeio para o "farejo". Eu deixo a coleira mais solta numa rua sem saída com menos movimento de carros e vou deixando ela seguir alguns rastros. É o único momento do passeio que eu vou para onde ela manda, muitas vezes ela fica ziguezagueando e tentando ir muito longe e sendo contida por mim, mas outras ela se fixa em um ponto específico da vegetação que nasce entre os paralelepipedos e fica mexendo o focinho para um lado e para o outro com um movimento muito, mais muito sutil, que só os grandes observadores conseguem notar.

A felicidade quando estamos na rua fica estampada nos olhos da Fiona, e o rabo abana quase o tempo todo, meio que como um sinal de agradecimento por proporcionar mais uma deliciosa visita as possíveis surpresas que moram do lado de fora da porta.

Eu sempre me perguntei porque algumas pessoas preferem passar as suas vidas trancadas, já que só temos uma vida e ela passa muito, mas muito rápido.

Quando eu comprei meu último carro fui levá-lo para meus avós e minha tia mais velha o conhecerem. Isso é meio que um ritual nosso. Minha avó sempre desceu para entrar e olhar o carro. Mas agora conforme sua doença vai avançando as coisas vão piorando e ela ficou junto com o meu avô e a minha tia olhando o carro lá de cima do quarto andar do prédio. Não vendo nada senão o teto e o capô do carro. E não existe uma impossibilidade física que separe minha avó do carro. Somente a maluquice geral da minha família multiplicada por mil (já que dizem que as coisas pioram com a idade).

Para uma pessoa como eu essa cena é bizarra. Quando eu comparo as pessoas da minha família com as pessoas de outras famílias (nessa questão da reclusão) eu tenho verdadeiros arrepios. A avó de uma grande amiga minha é mais velha que minha avó e viaja de ônibus sozinha para outra cidade. Todo mundo sai, mais ou menos, mas sai, viaja vai ao cinema. Ao contrário da minha avó ficou tão presa e ancorada dentro daquele apartamento que ficou lelé com menos de 80 anos. O meu avô que a acompanhou na empreitada parece ser provido de genes de melhor cepa, e aos 89 anos não está demente, mas por sua vez arrumou uma doença degenerativa e uma artite tão feia que ficou prisioneiro de seu corpo.

As vezes eu acho que a posição dele é bem pior; certa vez, ele assumiu para mim que pensamentos nefastos tomam conta de sua cabeça vez ou outra quando ele se deita para dormir. Na posição do meu avô, deve ser impossível não pensar que sua ampulheta está ficando sem areia, especialmente se você ainda tem massa cinzenta intacta. Tentei me colocar no lugar do meu avô por uns 30 ou 40 minutos e rapidamente precisei ocupar minha cabeça com outra coisa.

Talvez a solução para esse problema seja mesmo se ocupar, viver tanto quanto você possa e de fato mesmo aos 89 anos tentar pensar em outra coisa... o que deve ser mais fácil se você viveu muito e intensamente o tanto quanto pode. Mas deve ser foda de ruim se você optou por deixar a vida de lado e ficar trancado num apartamento com a sua mulher e os filhos e netos dela por 30 anos como meus avô fez.

sábado, 8 de outubro de 2011

loca loca loca

Sabe o que me desespera mais?
Saber que mesmo com a minha avó velha, gagá e cansada de ser quem ela é minha tia e minha mãe insistem em tentar prolongar seu legado de maluquice não importa o preço.


A vida toda eu escutei que na minha família só haviam mulheres fortes. Forte é o cacete. Elas são é muito covardes, passaram a vida inteira fazendo o que minha avó mandava, reproduzindo aquilo o que a minha avó dizia.

Que dificuldade em encarar a vida fora da barra da saia da mamãe... são duas burras velhas de mais de 60 anos e continuam fazendo merda em cima de merda e pior, querendo afundar os outros na merda.

É um prazer inenárravel que elas tem em tentar me arrastar para este buraco do qual elas não conseguem sair. Quanta covardia da parte de uma, quanta arrogância da parte da outra.

A minha família é tão difícil como problema para se lidar que dá trabalho me preocupar com o que acontece na minha vida a parte do universo de maluquices deles. Muitas vezes eu tenho a impressão de que 70 a 80% do tempo eu estou me esquivando ou tentando limpar a merda da minha família quando ela encosta em mim e só no restinho de tempo que me sobra eu posso tudo, viver, me divertir, e lidar com os problemas reais da minha vida adulta.

Agora por exemplo o corpo docente ignóbil e mediocre do meu curso de doutorado está tentando fazer uma rotação das bolsas de estudos que alguns de nós temos direito.

Na verdade quanto mais contato eu tenho com aquela gente mais eu dou graças a deus que só falta um ano e meio para defender a minha tese e que as coisas estão mais do que em dia.

Eu sempre me pergunto quanto escuto o papo da rotação das bolsas se algum dos meus ambiciosos coleguinhas deu o duro que eu dei para arrumar uma bolsa. Ou ainda se eles se dedicam como eu a fazer de suas teses um trabalho extraordinário.

Isso seria pedir demais a quem tem sérias limitações intelectuais é óbvio. Tirando algumas pessoas a quem eu tenho muito apreço, boa parte dos meus colegas de doutorado não consegue ver muito além do próprio umbigo, e vive como a maior parte das pessoas desse país querendo formar uma panelinha ou vínculo político para levar algum tipo de vantagem sobre quem está apenas querendo viver sua vida.