segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

início meio e fim

Hoje pela primeira vez minha mãe deu um banho em minha avó.

Digo pela primeira vez, pois minha mãe vendo o estado de minha avó (sem banho as vezes durante meses), nunca anteriormente havia obtido nenhum sucesso na tentativa de execução de uma bela sessão de limpeza. Minha avó muitas vezes gritava que não! Que não queria... e minha tia insistia em dizer que não deveríamos forçar minha avó. Que deveríamos respeitá-la.

Mais uma vez o império da maluquice da minha avó e seus suditos fiéis falavam mais alto do que a lógica e o bom senso. Que vergonha eu tenho da minha família as vezes.

Na verdade um grande problema no trato com meus avós na posição de idosos/quase incapazes, foi o fato de minha tia ter continuado tratando minha avó como uma pessoa "normal" quando ela mostrava sinais de demência bem claros. E graças a isso, rolava um impasse na "manutenção" dos velhos. Nada mudava, pois de um lado tinha minha tia "respeitando" as vontades de minha maluquete avó, e do outro minha pondo panos quentes nos sintomas, sempre dizendo que minha avó não estava tão mal assim, buscando sempre um fio de esperança nos momentos de lucidez de minha avó.

Na semana passada, após quase 3 anos do começo dessa maluquice toda de avós doentes, minha tia se rendeu. Me pediu para levar minha avó ao médico, pediu também que eu desse banhos nela, pois ela estava fedendo. Eu rebati dizendo que pediria ajuda a minha mãe. Para minha surpresa, minha tia não disse nada.

Digo isso pois fico desconfiada que minha tia mais velha trabalha em um movimento constante de drag me to hell, para dividir com ela o posto de gárgula soberana no trato dos meus avós.

O cacete espinhento que eu entro nessa. Depois de quase cinco anos de análise consegui meio passe de liberdade capenga dessa família doida e ela fica tentando amarrar o laço em mim de volta e me puxar para dentro do castelo... é ruim ein!

Aos poucos meu ex analista foi me convencendo que o "mecanismo da angustia" imposto pela minha família tinha muito a ver com a imposição irrestrita das maluquices da minha avó, custe o que custasse. (isso pode ser a minha leitura... talvez, mas acho que mexer nas peças trouxe resultado sim).

A maluquice de vovi, é tão doida que ela continua mesmo maluquete do alzheimer, torturando vôvi e tia do inferno sempre que pode.

Meu avô hoje veio me dizer pela enésima vez que sofre quando minha avó diz "Eu quero morrer". E eu já falei enézima ao cubo, com toda minha paciência que ele é lúcido e ela não, que ele deve relevar este tipo de coisa. Aliás, eu falei, a médica neurologista falou, o cachorro falou o papagaio piou e deus murmurou. Meu avô continua capturado, e minha avó continua implicando.

Tenho paciência e sou doce com os velhos por gentileza. Gritar com eles ou perder a paciência seria o mesmo que agredir a um bebe. Claro, rebato as maluquices da minha avó, mas no máximo quando ela me agride fisica ou moralmente eu a "coloco de castigo" sentadinha no sofá e explico porque ela não deve fazer as coisas daquele jeito.

Por outro lado entretanto, em apenas alguns meses, as coisas mudaram muito na casa dos meus avós. As compras não são mais feitas integralmente na padaria que cobrava um absurdo por um litro de suco de laranja e um pacote de biscoitos. Cifras próximas a 600 reais eram gastas todas as semanas somente em "besteiras", pães biscoitos e afins. Até pouco tempo atrás o cardápio diário da casa era escolhido pela minha avó, que muitas vezes fazia meu avó diabético comer coisas que não podia, e comprava toda semana de uma empresa de comida congelada que vendia marmitas que tinham gosto de isopor e cobravam uma fortuna.

Atualmente minha tia que ganha muito bem e nunca pagou nenhuma conta na casa nos seus 65 anos de vida (vivia sustentada pelos meus avós, mesmo quando tinha um salário mais alto do que o do velho) paga as compras de mercado. Paga reclamando, me enche um pouco a paciência, mas paga.

Meus avós comem comida fresca, feita pela empregada que é uma cozinheira de mão cheia. Meu avô vai ao médico e minha avó depois de meses de uma negligência surreal tomou um banho.

Eu fiquei ao lado da minha mãe durante o banho e olhei para o corpo bem envelhecido de minha avó. Haviam muitas marcas de cola adesiva em suas costas graças ao patch que ela usa diariamente para retardar a evolução da doença de alzheimer. Graças também a falta de asseio na remoção da cola adesiva no momento da troca do adesivo.

Toda semana minha mãe olhava para aquilo e reclamava. Eu dizia: fazer o que? Não podemos tocá-la. Minha avó tirou a roupa e eu olhei bem para seu corpo. Estava bem diferente do que eu me lembrava. Minha avó sempre foi uma mulher cheinha, com curvas e sua pele mesmo quando ela já tinha mais de setenta anos era firme. Hoje não. Ela estava magra, a pela sem tônus, tirando a pele do rosto (que ainda tem viço) a do resto do corpo parecia papiro.

Sua expressão era estranha, um misto de desgosto de sentir a necessidade de ser auxiliada para fazer sua higiene pessoal, e o prazer de se banhar em um dia quente. Minha avó apresenta sinais de impregnação da medicação. Fazia movimentos estereotipados com a boca, por um segundo pensei que ela estava sem prótese dentária, mas não, são os remédios que a mantém um pouco menos doente, mandando seu recado.

Fazia muito calor no banheiro e a água ligava e desligava intermitentemente. Ela reclamava do frio quando o velho aquecedor insistia em não funcionar e desligar a água.
Meu avô ao me ver sair do banheiro com as roupas sujas de minha avó na mão perguntou: ela está tomando banho? Eu disse: Sim. Ele sorriu.

Eu não sei ao certo quantas vezes minha avó me deu banhos, sei que não foram poucas. Alias era isso que minha mãe dizia a ela quando ela repetia durante o banho: "estou dando trabalho, eu não queria fazer isso com vocês".

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