segunda-feira, 24 de outubro de 2011

angoisse

A angustia parece ser uma companheira antiga.

Tenho 32 anos e a primeira vez que tive uma crise eu tinha apenas 11 anos. Na verdade naquela noite de domingo eu nem imaginava que seria a primeira de muitas e muitas crises.

Durante algum tempo eu pedi socorro a minha família, mas como eu já mencionei anteriormente ela me ignorou completamente, e dessa forma pioraram muito o problema, o que resultou em anos praticamente inteiros dedicados a angústia.
Era uma espécie de força que tomava todo o meu corpo de assalto. Viver angustiada é muito difícil e cansativo também, aos 18 anos eu torci para que o tempo passasse bem rápido e eu chegasse logo aos 40 ou aos 60 anos para que a morte estivesse mais próxima e eu pudesse me livrar da sensação que a angustia tras.
Nos momentos que de trégua, era fácil encontrar um motivo que voltasse a me deixar angustiada de novo. Álcool, por exemplo. Beber me deixava angustiada, assim como alguns comerciais de TV, notícias de morte fosse no jornal ou na minha família... a idéia de morte de uma maneira geral.

Ontem eu estava assistindo uns vídeos do garoto enxaqueca e senti muita saudade daqueles "anos da angústia" 1996-1997. Digo isso porque quando penso nessa época um inverno muito cinzento é a primeira coisa que me vem a cabeça; mas eu tenho consciência que minha juventude não se tratou só disso; ai resolvi fazer força com o cérebro e procurar me lembrar bem daqueles dias... As vezes eu matava aula com meu amigo Jay, e passávamos o dia circulando pela cidade de ônibus até o anoitecer, isso era divertido. Ou então o dia que as férias de verão começaram e nós alugamos trainspotting e pedimos um pizza para comer enquanto assistíamos o filme.

O jeito que eu me vestia, (uma coisa entre sapata-cluber e punk) as besteiras que eu aprontava com a Mônica, uma amiga do curso de inglês. São muitas as lembranças que me vem a cabeça. Como o dia que Jay me deu um poema de natal dizendo que o mundo era azedo e eu fazia parte do seu antídoto, ou as inúmeras vezes que eu fui com Mônica ao shopping passar horas nos videogames ou as tardes que eu passei na casa de amigos simplesmente ouvindo música e jogando conversa fora, os shows, as festas... bem, aí a coisa pegava, a noite a angústia costumava bater firme e foi aí que aos poucos o lexotan foi entrando na minha vida.

Mas eu sentia muita vergonha de admitir o meu "problema" e meus amigos nem desconfiavam do que se passava comigo.

As vezes eu fazia umas besteiras como o dia que eu fui ao mercado mundo mix com o Jay e misturei lexotan com bebida e achei que fosse morrer de tanta palpitação.

Minha angústia sempre me pegava antes de dormir. Eu tinha medo de dormir e não acordar... as vezes eu dormia e acordava sem ar, com o coração saindo pela boca de tão rápido, e simplesmente o pavor me tomava... tremores, suor, uma sensação que me dominava o corpo, eu não tenho ideia de quantas vezes isso aconteceu. Por muitas vezes eu me levantei e passei noites inteiras em claro fazendo os rituais mais bizarros esperando resolver o problema. Teve uma vez que eu fiz waffles com sorvete, outras eu ligava a TV e assistia até a sessão do descarrego... ou então passava rezando em silêncio para que meu coração se acalmasse assim como a minha mente que não parava.

Ontem eu resolvi tomar uma cervejinha junto com um delicioso acarajé. Algumas horas depois eu estava angustiada. Ao contrário do que ocorria quando eu era mais nova eu procurei ir deitar, fui para cama porque estava com frio e morrendo de sono, apesar de ser apenas 8:30 da noite e este não ser o meu horário habitual do soninho.

De fato depois que eu comecei a fazer análise a minha angustia foi não só diminuindo como mudando de figura. Nunca mais uma angústia enorme sem motivo nenhum aparente me pegou; muito embora a sensação tenha vindo com tudo algumas vezes mesmo depois da análise normalmente estava vinculada a alguma questão mal resolvida e não simplesmente um "touro indomado" que não tem a menor razão para vir me atacar.

Na verdade mesmo depois que eu comecei a análise eu levei muito tempo para compreender que angústia é uma característica humana. Por que? Provavelmente porque eu vivia tão angustiada que era difícil ententer que a angústia acontece as vezes, é normal. Não pode é ser sua companheira do dia a dia como acontecia comigo ha alguns anos atrás, mas como um aviso de que talvez as coisas não estejam saindo como você planejou ou simplesmente porque você descende da família da minha avó e lá (na família da minha avó) o exército da angústia faz de tudo um pouco para complicar o que pode ser fácil "de tabela" tentar empurrar umas dosezinhas do tal sentimento para ver se você impaca mais um pouquinho a sua vida e entra na "ciranda dos malucos".

Voltando ao domingo a noite... eu me deitei e tentei algumas das minhas técnicas anti angústia mais utilizadas: respiração de yoga, me revirar para lá e para cá na cama, tentar pensar em outra coisa, me levantar repetidas vezes e ir ao banheiro... pois bem com o fracasso das opções anteriores eu decidi travar uma batalha com a angústia; eu pensei: eu tenho todo tempo do mundo e dessa vez não levanto dessa cama até vencer.

Voltei a respiração de yoga e me "estabilizei", ou seja a angústia não melhorou nem piorou. Desafiei o sentimento algumas vezes dentro da minha mente, e aos poucos a coisa começou a baixar... não sei porque me virei de lado e experimentei uma sensação entre o dormir e o despertar durante algum tempo, além de alguns minutos de cochilo.

As 9:40 minha namorada me chamou para fazer o jantar. Eu nem havia notado que mais de uma hora havia se passado, me levantei meio sonolenta com muita preguiça e um resquício de angustia, mas fui lá, fiz os sanduiches com um esforço fenomenal (por causa do sono e da preguiça) e acabei me desprendendo dos meus sentimentos angustiantes assistindo a primeira temporada de queer as folk.

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