Quando eu era adolescente MTV Brasil apresentou uma série de reality shows (as transmissões aqui no Brasil começaram entre 1995 e 1996 eu acredito) chamados the real life. Foi uma febre entre os "então"adolescentes da minha idade. Até que em 1997 foi ao ar a temporada 3 do show que se passou em São Francisco.
No primeiro episódio um rapaz se assume homossexual e se diz portador do vírus HIV. O show foi ao ar em 1994 portanto a terapia antiretroviral estava engatinhando ainda. Ficou bastante claro para mim pelo menos, naquele momento que a sobrevivência daquele rapaz era uma questão bastante frágil, uma vez que todos nós sabíamos o que acontecia naquela época com quem pegava Aids mais cedo ou mais tarde...
Curiosa no auge dos meus 17-18 anos eu assisti o programa todos os dias, não perdia nenhum episódio, mesmo tendo que acordar cedo para ir ao colégio no dia seguinte. E o que vi foi um homem definhando no reality show mais real que eu já havia visto em toda a minha vida. Tudo era mostrado, seus namoros, as brigas com colegas de casa, até relatos da sua experiência médica eram divulgados... como, por exemplo, a sua contagem de células tcd4 que na época estava em 32 e caindo. O que é surreal hoje em dia, o tratamento costuma começar muito antes do indivíduo apresentar a níveis tão baixos. A sensação mais presente que eu tinha era a proximidade de sua suposta morte. Mesmo que naquela época eu não soubesse o que significava isso eu percebi que a coisa era séria.
Cada uma das temporadas desse programa era acompanhada por um reencontro das pessoas que faziam parte do programa. Porém, a MTV Brasil nunca transmitiu o reencontro dessa temporada e eu nunca entendi o porquê. No último episódio, porém eles anunciaram que Pedro Zamora, o rapaz com HIV, havia morrido um dia após a transmissão do último episódio daquela temporada.
Eu fiquei desesperada. Após o colégio eu procurei uma igreja para rezar por ele, e eu não achei nenhuma aberta, então parei na porta de uma igreja fechada e comecei a rezar assim mesmo.
Foi uma época difícil para mim, lidar com a morte de um rapaz tão jovem tive uma sensação horrível.
Hoje 15 anos depois estou aqui trintona e supostamente vacinada, senhora de mim e não sei por que, me lembrei de Pedro Zamora. Pesquisei sobre ele hoje na internet e vi que sua trajetória foi acompanhada em rede nacional praticamente até o dia de sua morte.
Em 2008 fizeram um documentário sobre a sua vida, chamado Pedro, que eu baixei e assisti, bom o filme!
Pedro Zamora, morreu com 22 anos no final de 1994. Ele havia descoberto a doença 5 anos antes em 1989 e decidiu que iria passar os últimos anos de sua vida trabalhando com prevenção face a face e esclarecimentos a jovens em todo o país sobre os riscos relacionados ao vírus.
Hoje eu penso que Pedro devia saber há quantas andava a sua saúde antes de ingressar no programa e fez isso talvez de forma não consciente para mostrar em cadeia nacional o que era conviver com o HIV, procurando talvez evitar o preconceito e conscientizar as pessoas será? O que me sensibilizou muito, de várias maneiras, e para minha surpresa ainda me sensilibiza.
Ontem fiquei dormindo e acordando a noite toda pensando nessa maluquice toda, juntando os pauzinhos.
Pesquisar o HIV instiga as minhas mais profundas curiosidades. Quando a epidemia estourou eu tinha 4-5 anos de idade. Eu me lembro vagamente da comoção e de pessoas definhando ao vivo na televisão. Famosos morrendo, homossexualidades denunciadas... Este foi o momento em que definiram-se os estigmas e os "culpados" e muitas pessoas envolvidas viam-se acabaram embarcando nesta fantasia que de certa forma vive até hoje.
Hoje as coisas parecem ter mudado, o politicamente correto nos impede de chamar alguém de aidético e mais ainda de associar a doença a vivência homossexual masculina. Mas no duro isso acontece?
Acho que de certa forma não. O “efeito cazuza” perdura nos nossos imaginários e continua atuando para além da razão. Como vemos isso? Quando Marcelo Dourado afirmou que só heterossexuais com vivências homossexuais se contaminariam; ou ainda, quando uma médica formada concorda com isso, e insiste em impedir um homossexual assumido de doar sangue, já que segundo ela, ele “faz parte de um grupo de risco, e que homossexuais pegam mais Aids”. Essas pessoas pensam, e agem dessa maneira porque tem o apoio de uma lei federal, que impede homossexuais de doarem sangue em bancos do governo. O que isso significa? esquece-se de tudo aquilo que o próprio saber médico tem descoberto durante todos esses mais de 30 anos de epidemia. Porque o imaginário da doença ainda fala mais alto do que a lógica as vezes.
A resposta da sociedade para a epidemia foi patética, ignorou-se o risco por muito tempo por crer que se tratava apenas de uma “doença de gays”. Erro fatal. Estigmatização bestificante altamente prejudicial para a condução da epidemia, que construiu um imaginário para a doença, ancorado em conceitos preconceituosos e equivocados.
O segundo grande erro foram as estratégias e polítcas de prevenção e quase todas dispensaram a massificação das informações epidemiológicas e se basearam em ordens imperativas como: “use camisinha”, “a AIDS mata”, “cuide-se”, “quem vê cara não vê AIDS”, entre outros slogans. A outra estratégia de prevenção por sua vez infligia o medo, imagens de morte, letras garrafais vermelhas, supostos cadáveres ambulantes. Somos pouco informados e muito arrebanhados. Essa é a receita infalível da ignorância.
A primeira vez que eu conheci um portador do HIV foi em 1998, mas ele faleceu e eu não tinha a menor idéia de ele era HIV + portanto eu não pude fazer nenhuma espécie de julgamento com relação a isso.
A segunda vez foi em 2000. O namorado do meu melhor amigo na ocasião era HIV+ e eu tive uma surpresa maravilhosa, o cara era legal demais. Confesso que da primeira vez que fui encontrá-lo eu tive medo de ofendê-lo ou de constrangê-lo de alguma forma e fiquei muito nervosa. Mas o cara era tão legal que sinceramente, depois daquela experiência conheci vários outros soropositivos e sinceramente, eu nem me lembrava que existia do detalhe das tais 3 letras.
Para quem ficou curioso sobre Pedro Zamora eis o link da wiki que fala mais dele.
http://en.wikipedia.org/wiki/Pedro_Zamora
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