domingo, 25 de setembro de 2011

o amor mais rápido do mundo

Existem dois dias na vida de um cão que você nunca esquece: o dia de sua chegada e o dia de sua morte...

Um certo dia eu era bem pequena, tinha uns 2 ou 3 anos e a pequinês da minha vizinha me deu uma super mordida na mão.

Depois desse dia passei a ter pavor de cães. Não sei precisar de certo quanto tempo o medo durou, mas sei que passou um dia, não muito tempo depois, quando eu estava na casa de uma amiga da minha mãe em São Paulo que tinha um cocker preto. No começo eu fiquei apavorada, mas aos poucos o dócil cão me salvou do universo da privação canina. Brincamos a tarde toda, e noite a dentro até que eu cai no sono no chão, abraçada no cão preto.

Após esse dia eu passei a pedir um cão a minha mãe todo final de semana. Mas ela se recusava, e existia uma razão pela recusa na aquisição de um novo canino já que a minha avó ( dona e rainha da casa, portanto se ela não quisesse nada aconteceria) ainda sofria com a perda da Jujuba vira latinha que pertenceu a familia por 16 anos (quinze deles antes do meu nascimento) e se recusava a aceitar um novo cão na casa com medo do sofrimento que sua futura morte causaria.

Um belo dia antes de eu ir para o colégio, a cachorra que fazia a guarda de um colégio para crianças com deficiência mental o lado do prédio dos meus avós teve cria . Nasceram vários viralatinhas pretos e brancos, e de repente meu avô saiu e reapareceu com duas cachorrinhas. Eu não sabia ainda, mas uma era para uma conhecida da minha avó, a outra era nossa.

Estava calor e meu avô colocou seu sungão e pôs-se a lavar as duas cachorrinhas... um mar de pulgas saia junto com a água suja do banho. Minha avó as enxugou em uma toalha laranja, chegou perto de mim com a menorzinha e disse: Aqui está, você não queria então... você escolhe o nome dela, é sua! Eu tinha apenas quatro anos e nenhuma imaginação pensei rápido; estava passando "os Flinstones" na TV e eu disse... " já sei! Eu quero Pedrita!". "Então é Pedrita, disse minha avó animada".

Eu não entendi muito bem porque eu tive o privilégio de escolher o nome dela, e não entendo até hoje, afinal esse privilégio de costume seria da minha tia mais nova (a retardada); acho que uma vez na vida pelo menos minha avó me deu uma oportunidade de passar a sua frente (talvez porque minha avó estivesse ansiosa e ela (a tia) não estivesse em casa) e eu escolhi um nome surrealmente infantil, mas enfim... garantiu um momento de alegria infantil quase infinita para mim!

A Pedrita quando filhote, parecia um chuchu, pelinho comprido, preto e branco, "barriguinha verminosa rs" fuço branco e preto, um doce de filhote, calminha. Sua primeira cama foi a tampa de uma caixa de brinquedos forrada com uma colcha de chenile cor de laranja. Depois meu avô fez uma cama sob medida para ela, com colchãozinho, acabou mesmo dormindo na cama dos meus avós durante quase toda vida.

Eu amava muito a Pedrita, mas ela sempre foi uma seguidora leal da minha avó, rosnava, me mordia, só era companheira mesmo quando eu estava comendo e ela estava pedindo um pouquinho do que eu comia...

Quando a Pedrita tinha sete anos, eu estava no ponto de ônibus com a minha tia (a mais velha - do inferno) esperando para ir ao colégio, quando alguém atirou uma coisa marrom de dentro de um carro. "olha jogaram um rato, ela disse!" - "ratos não tem orelhas pontudas" eu retruquei. Um ônibus vinha a toda, prestes a atropelar o filhote, mas minha tia se colocou na frente e ele freiou. A cachorrinha fugiu desesperada para dentro de um prédio. Eu pulei o muro e fui lá pegá-la. Ela estava morrendo de medo, muito suja e se tremendo toda.

Como a Pedrita não era de muitos amigos, meus avós preferiram não levar a filhota que era muito pequena para junto dela, e ela ficou "guardada" na garagem de um apartamento vazio do prédio dos meus avós. Minha mãe ao ficar sabendo do ocorrido, pediu para ficar com a cachorrinha.

Decidimos juntas dar o nome de Candi. Açúcar candi, dizia a minha mãe, é marrom da cor dela. Eu era fascinada por aquela criaturinha de fuço marrom. Muito simpática. Minha companheirinha, passeávamos juntas, brincávamos a beça, eu a vestia, jogava farinha na sua cara para que ela ficasse branquinha... assistíamos TV juntas.

Tudo era incrível, até que um dia fomos viajar e a deixamos na casa da minha avó. Quando voltamos minha avó disse a minha mãe que queria a cachorrinha para ela, e minha mãe sem pensar muito a deu. Eu fiquei arrasada, minha mãe proferia mil desculpas como "ah o nosso prédio não aceita mais cães" ou "lá ela fica melhor tem mais companhia" mais isso melhorava em nada o meu sofrimento, e mesmo após ter implorado vezes e mais vezes a minha mãe para que ela não fizesse aquilo, mais uma vez, ela preferiu ser filha da minha avó, a ser minha mãe.

Candi passou da terna docilidade a total ferocidade... ficou agressiva, possesiva, não gostava mais de brincar, rosnava, avançava à toa no meu avó, com requintes de crueldade. Fazendo a alegria mórbida das minhas tias e da minha avó que o chamavam de covarde. Chegou a um ponto que ele parou de dormir na mesma cama que minha avó, pois a Candi avançava nele se isso acontecesse.
Além de todos esses absurdos, ela passou a ter problemas de saúde, teve dois derrames, pressão alta, surtos de agressividade sem o menor sentido. Em pouco tempo não se parecia mais em nada com a delícia de cachorrinha que nós criamos.

Pedrita morreu aos 19 anos no ano de 2002 e eu fiquei arrasada. Foi muito triste perde-la, eu praticamente não me lembrava da vida sem ela. Candi no dia seguinte a morte da Pedrita mudou, estava toda grisalha. Passou um ano infernal, se auto mutilou, teve diversos problemas de saúde até que no começo de 2003 eu a flagrei convulsionando em baixo da cama dos meus avós.

O médico veterinário disse várias coisas sobre aquele estado, e prescreveu gardenal. Como a minha tia do inferno se acha uma grande sábia, se recusou a dar a droga para a Candi, dizendo ser um absurdo dar uma droga tão forte a um cão. Candi, não medicada por sua vez foi sofrendo convulsões mais e mais fortes e frequentes até convulsionar quase 6 vezes por dia, no final ela vivia dopada e quando voltava a si, ou convulsionava, ou não nos reconhecia.

No dia 1 de maio de 2003, quando ela tinha 12 anos, meus avós decidiram sacrificá-la.

Foi muito difícil, minha mãe tentou me consolar me levando a uma churrascaria super chique, mas ela mesma acabou se debulhando em lágrimas durante o almoço e eu tive que consolá-la. Chamei meu amigo J. que me fez companhia durante aquela noite, e me consolou em silêncio, até porque eu não conseguia me expressar muito naquele momento.
Algum tempo depois, eu estava muito, mas muito triste com tudo que tinha acontecido, até que a minha ex surgiu com alguns pelinhos da Candi, que ela havia guardado para me dar em um momento oportuno. Só eu sei como aquele gesto me fez bem.

A minha dor persistiu durante algum tempo até que em 2005 eu estava sozinha em casa navagando na internet em uma noite insone e encontrei uma ninhada de fêmeas para doação.

Imediatamente entrei em contato com as meninas e peguei mais informações. Isso foi numa terça ou numa quarta e no domingo eu estava dirigindo com minha Fioninha para casa.

Ela veio em cima de uma caixa de pizza, dormindo. Coisa mais linda, toda marronzinha e branca, com o fuço branco e marrom.

No dia que ela chegou eu me perguntei por várias vezes se era a coisa certa ter mais um cão... até que em um momento ela veio, abanou o rabinho e me deu uma lambida no nariz, aí eu tive certeza que era a coisa certa.

Eu nunca amei uma criatura tão rápido quanto eu amei a Fifi.

É claro que a minha avó tentou pegá-la também, mas eu já estava crescida o suficiente para impedir.

Só eu sei a importância que a Fiona teve na minha vida naquele momento eu estava me sentindo muito sozinha e ela preencheu uma lacuna sem tamanho! Talvez ela com seu coração de cão tenha noção do bem que ela me faz!

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