segunda-feira, 8 de agosto de 2011

beetlebum

Because you're young
She's a gun
Now what you've done
Beetlebum
She'll suck your thumb
She'll make you come
Coz, she's your gun
Now what you've done

Eu sempre fui fascinada por doenças mortais e terminais. Por outro lado, a morte por muito tempo foi motivo de angústia extrema para mim, uma força paralisante que me impedia de fazer as coisas mais comuns presentes no universo da maioria dos adolescentes como, por exemplo, sair a noite com os amigos ou ir a uma boate.

Mas apesar de tanta angústia, ao mesmo tempo eu sentia uma atração quase irresistível por adquirir o máximo possível de informações sobre o mórbido.

Durante a infância, por exemplo, qualquer propaganda de prevenção em saúde que evocasse de alguma maneira o mórbido ou a morte, como as campanhas da Aids na TV nos anos de 1980, me deixavam tão apavorada que eu fugia da sala durante os comerciais dos programas de TV para evita-las.

E de fato, esse pavor não se extinguiu com o final da minha infância... a angústia me acompanhou por práticamente toda a adolescencia, e a sensação que eu tinha é que "o resto" ou seja minha vida era vivida nos intervalos da agonia, quando eu com muito esforço saia de dentro de uma carapaça dura para cacete e conseguia respirar aliviada.

Quando eu tinha uns 18 anos eu estava assistindo um show no centro da cidade a noite com um grande amigo meu. Estava anoitecendo e era inverno, com o crepúsculo vinha um vento gelado. Eu não lembro bem se era a música, mas havia algo de morbido no ar... e naquele momento por um instante meus pensamentos ficaram mais vagos e por alguma razão a noção de que eu não teria como escapar de minha própria morte me atingiu em cheio... a sensação de desespero e sufoco foi horrível, um terror completo. Tudo a minha volta havia perdido o sentido e a importância.
A partir daquele momento, passei dias e noites tentando encontrar um meio de evitar minha própria morte.

Obviamente sem sucesso em minha empreitada, acabei algumas semanas depois me perdendo em outros pensamentos adolescentes, e como a maioria das pessoas ditas "normais" fui me esquivando deste dia e deixando de pensar na minha própria morte continuamente já exausta pelos dias angustiados e as noites mal dormidas decorrentes dos meus pensamentos nefastos.

Porém outras crises mais intensas de angústia viriam me atormentar não muito tempo depois.
E essas crises eram tão intensas que além de me deixarem acordada, atrapalhavam também o sono de minha mãe também (afinal para quem mais pode-se pedir socorro aos 17 anos?) ... Mas minha mãe, por sua vez ao invés de me ajudar de verdade, queixou-se a minha avó, que por sua vez parecia não ter nenhum interesse real em me ajudar a superar minhas "frescuras e maluquices" e prescreveu-me no auge de toda sua sabedoria psiquiátrica 1 semana de lexotan 3mg em um movimento muito sagaz na tentativa de me manter "mansinha e bem domesticada".

Que bem me fez minha querida avó! Sensação deliciosa que tal comprimidinho rosa me dava... pela primeira vez em 5 ou 6 anos (tive minhas primeiras crises de angustia aos 11 anos) solenemente ignoradas pela minha mãe, avó, tia, e qualquer outra pessoa da família.

Enfim, como qualquer bom manipulador faria com seus peões, fui medicada, primeiro por mamãe e vovó e depois, tanto por costume de sempre ter ocupado aquela posição, como por desespero de voltar a viver a angústia "em seco" continuei o que minha avó começou por conta própria... aos 18 anos eu era completamente dependente do comprimidinho (que já não era mais o rosa, mas sim o verde) para me sentir bem, e viver outras sensações para além da angústia. Se minha mãe ou minha avó sabiam, cagavam solenemente, e/ou deviam achar melhor assim.

Mas minha família não é ruim de todo é claro, (nenhuma acaba sendo não é?) e acabava por me fornecer outros meios de lidar com a angústia que não o tal comprimidinho mágico.
Por exemplo, mamãe e vovó sempre apresentaram para mim uma série de valores familiares muito "decentes e apropriados a moças de boa família" como a honra, a verdade, e a força de vontade.

Mas eu não estou sendo justa aqui, além da angústia e dos tais "nobres" valores, eu também sentia medo, aliás porque medo e angústia andam sempre lado a lado é claro, fazem um casal perfeito. Com 19 anos eu fui ficando cagada de medo de morrer cedo e de me tornar "a loca do lex" aos 30 anos acabei evocando o "valor" da força de vontade e a santa internet, e aos poucos fui diminuindo minhas doses de lexotan por conta própria até chegar a 1/4 do comprimido rosa por dia até que aos 20 anos fiz uma longa pausa no uso contínuo do glorioso comprimidinho.

Digo pausa porque após alguns anos eu fui aprendendo que qualquer pessoa (especialmente com uma família louca como a minha) precisa de uma droguinha lícita ou ilícita para encarar esse mundo que nem sempre é fácil ou justo. (vejam bem eu me considero uma pessoa de sorte, e imagino como é a barra para quem não acha isso de si mesmo)

Como eu falei anteriormente acima, além de angústia eu sinto medo... tenho medo demais de algumas drogas tais como: religiões totalizantes, adoração de santos vivos, terapias que não levem em conta a inteligência humana, pó, crack, birita, além é claro dos nefastos efeitos causados por essas coisas, portanto fico com minha meiotinha de comprimidinho rosa de vez enquando, quando a barra pesa, além de dar valor para pequenas coisas como olhar o dia amanhecendo na praia, sentir o calor do sol no rosto, dormir juntinho da minha namorada e olhar o rabinho da Fifa balançando frenético toda vez que eu chego em casa.

Além disso, com o tempo eu também descobri que chega uma hora que só comprimido não resolvia mais porra nenhuma.

Depois de anos vivendo sob o crivo de uma família que não tinha nenhum interesse em me auxiliar no sentido de me libertar de minha angústia e permitir que eu vivesse minha própria vida da maneira que eu bem entendesse. Eu finalmente percebi que eu só me "libertaria" procurando com meus recursos e meios a maneira de me livrar (pelo menos o suficiente para tentar levar uma vida mais traquila com menos angústia, violência e sofrimento) a maneira de sair de uma teia entruncada que minha avó havia imposto para praticamente todos os seus familiares mais próximos, até para ela mesma...

É claro que isso se mostraria muito mais complicado do que eu imaginava, mas não impossível!

Um comentário:

aletosfera disse...

Nao sei se eu acredito em sorte, mas acredito em força, coragem e sensibilidade. Isso você tem! Sorte também é fundamental, é claro, mas como diz o velho (do velho e o mar, do Hemingway: luck comes in many forms, and who could recognize her? Vai saber.