Entre os quinze e os trinta e nove anos minha avó teve seis filhos. Três homens e três mulheres. Essa divisão exata entre os sexos de meus tios sempre me impressionou. Além disso, eu também ficava admirada com a quantidade enorme de pessoas que a minha avó trouxe ao mundo, além de meio assustada com o orgulho que ela sempre ostentou em ter feito "seis partos naturais" tão jovem. Com quinze anos eu era uma adolescente retardada que passava as tardes assistindo enlatados americanos dublados na tv, bebendo cerveja e comendo nuggets na casa de minha melhor amiga. Para mim era (e ainda é) simplesmente surreal pensar em ter um filho com aquela idade.
Nem todos esses filhos ainda estão vivos (aparentemente ter filhos em pencas e ver vários sucumbirem com uma certa naturalidade era um fato bizarro mas muito comum até algumas décadas atrás). Matemática... dizia minha mãe brincando. "se nascem mais, morrem mais".
É claro que existem outros fatores envolvidos, ligados as evoluções da medicina no que diz respeito a procriação humana e os cuidados pré-natais, mas não vou me ater a isso aqui.
Para mim, mais bizarro do que ter uma "ninhada" de filhos humanos e perder parte dela durante o decorrer da vida com certo "desapego" é o fato de que no caso específico da minha avó, aparentemente os filhos "varões" encontraram muitas dificuldades no quesito "se manterem vivos".
Dois deles não foram muito felizes nesta "cruzada". O primeiro deles, não sobreviveu nem as primeiras vinte e quatro horas após o parto "um erro da parteira que me deu uma injeção que não deveria" dizia minha avó. O que nasceu em seguida a este, também não teve muita sorte... acabou assassinado com um tiro no coração com aproximadamente uns trinta anos de idade creio eu. Portanto homem e filho da minha avó vivo, só o meu tio "caçula".
Mais interessante e estranho ainda é o fato de que não foram só esses dois filhos homens que não sobreviveram a minha avó. Meu avô biológico, pai da minha mãe, de minha tia mais velha, dos meus dois tios defuntos e desse meu tio que ainda está vivo, também sucumbiu. Problemas ligados ao alcoolismo acabaram por corroer seu fígado deixando-o doente por alguns anos, até finalmente matá-lo ainda bem jovem, aos 42 anos.
Porém aparentemente nem todos os homens sucumbem a minha querida avó que acabou se casando de novo, aos 32 anos com meu "atual" avô que hoje tem quase noventa anos. (eu não cheguei a conhecer meu avô biológico, que morreu 16 anos antes do meu nascimento).
Essa união gerou (após 5 abortos espontâneos), minha tia mais nova, finalizando longa carreira de"parideira" de minha avó.
De todos esses filhos "sobreviventes", pelo menos até hoje, somente minha mãe e meu tio "colocaram os genes para frente"; minha mãe teve apenas uma filha: eu. Já meu tio celebrando o orgulho de ser o "único macho sobrevivente" resolveu levar muito a sério a ordem bíblica “Crescei-vos e multiplicai-vos” tendo quatro filhos, três meninas e um menino.
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