sexta-feira, 5 de agosto de 2011

a bola da vez

Tenho uma família bem doida e que as vezes me dá muito medo. Não dá para explicar tudo aqui, isso é só a primeira parte...

Avós com 88 e 81 anos respectivamente, eu os amo muito... Ele meu avô, tem doença de parkinson, ela minha avó Alzheimer, em estágio inicial para intermediário. Eu fui criada por eles, morei na casa deles até os sete anos de idade. Durante a adolescencia ia lá todos os dias até meus 16-17 anos. Os visito toda semana, trato com muita paciência e carinho, compro remédios, acompanho a médicos explico e re-explico as mesmas coisas se necessário. Tirando pela minha mãe e minha tia mais velha que mora com os dois (isso é um problema do qual falarei mais para frente), os visito mais do que todos os outros filhos deles. (tios e tias)

Devo muito a esses dois. Por diversas razões. Em certa ocasião ha uns 7 anos atrás, eu estava muito perdida e sem rumo, tinha acabado um relacionamento de quatro anos, estava sem emprego fixo meio vagando no nada, e minha avó (ainda lúcida) me chamou em um canto e disse: vai estudar, faz mestrado, se o problema é dinheiro seu avô e eu pagamos. Agarrei a proposta com todas as minhas forças e por sorte fui muito feliz neste rumo. Infelizmente hoje se eu disser a minha avó o bem que essa proposta me fez ela vai se esquecer em minutos.

De cara sofri muito com o dignóstico de minha avó. Senti e ainda sinto falta da força que ela me dava e de poder contar com ela como a amiga e confidente que ela foi durante tantos anos. Algum tempo depois do diagnóstico, as conversas entre nós foram se reduzindo a menos palavras, as mesmas perguntas por parte dela, e entre nós as posições foram mudando e eu virei meio que uma "cuidadora" não no sentido do acompanhante geriátrico, mas de alguém que fica de olho nas coisas tomando conta de assuntos referentes a vida prática... coisas de banco, comprar remédio, anotar recomendações médicas, pedir para tomar mais um golinho da vitamina, enfim, coisas que muita gente acharia chatinhas mas que faço numa boa, sem nenhum aborrecimento.

Por outro lado a doença de minha avó abriu um laço de ternura entre eu e meu avô, que provavelmente por causa dela, era muito fechado. É inegável que para mim é um alívio que ele me ainda me compreenda, me responda com atenção, carinho e retenha os momentos que passamos juntos, além da força e da proteção que ele me dá.

A velhice é uma coisa muito estranha e assustadora. Fico sempre com a impressão de que a tratamos como se ela nunca pudesse nos atingir de fato, fica sempre meio assim... ah quando acontecer a gente se vira. Mas uma coisa sobre a tal "melhor idade" (melhor para quem ???) é certa, e isso eu aprendi observando o caminho dos meus avós.

Idoso saudável e sorridente que aparece em comercial de margarina, anuncio de dentatura e pacote de fraldinha geriátrica é uma coisa. Idoso doente é outra. Cardiopatia, pressão alta, artite ou artrose são ruins, agora quando falamos de doença degenerativa do SNC o buraco é bem mais embaixo.

Lidar com caquinhos de cerébro que se organizam e se re-organizam a cada dia, é foda. E por mais que eu seja fascinada por essas transformações, quando acontecem com os amados vovô e vovó a coisa é pesada de verdade e se bobear acaba contagiando quem está perto (tenho um exemplinho básico na minha família).

Perdas cognitivas, são coisas bizarras, e assustadoras, (as vezes são engraçadas de tão rídiculas também confesso) as motoras são desestimulantes principalmente para quem está dentro do corpinho que mal se mexe, mais ainda raciocina com clareza. Para meu avô por exemplo a certeza de que a falta de mobilidade só piora e não tem volta é um fato complicadíssimo de se lidar.

Ha alguns meses tive que contratar um serviço de enfermagem domiciliar para meu avô, e na vasta procura que fiz me deparei com um desses artigos da internet, no qual li que a maior parte desses contratos não passa de cinco anos. Motivo? A expectativa de vida de um idoso que precisa desse tipo de cuidado não é muito maior do que isso...

Esse tipo de coisa me machuca. Tanto quanto me machucou a fala do médico neurologista do hospital da marinha que em certa ocasião (em que minha avó havia sido internada em estado de completa demência) me olhou admirado quando eu perguntei qual seria o possível diagnóstico e respondeu falando em meio a uma risada soturna "ha, minha filinha idade não é?".

Mas de fato, ha uma coisa muito mais muito interessante em assistir o envelhecimento dos seus entes queridos: a troca de posições.

Ela é perversa, e pode te dar um certo medinho talvez, porque afinal você é a "bola da vez" e a responsabilidade meu amigo agora é toda sua. Dá medo também porque lá no fundo, você sabe que a posição é transitória, afinal os meus avós (de quem tanto falei acima) já foram a "bola da vez"e forçosamente tiveram que abdicar dessa posição. Assim como meus pais e meus tios e tias (que atualmente ainda estão dividindo essa posição de certa maneira comigo). Mas na minha opinião triste mesmo é saber que tem gente que prefere nunca ser a bola da vez.
Mas eu, pelo menos nesse instante sinto um prazer inenarrável de estar nessa posição e de ter a sensação deliciosa de poder mexer com as peças do tabuleiro mais ou menos da maneira que eu quiser.

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